Já vos disse que, desde que voltei a Vimianço, cada día vou rercuperando palàvras, expressões, cousas que formavam parte da minha lingua de a cotio e que agora já não escuito nunca.
Umha delas, era esta que dizia minha mãe, ou quaisquer das mulheres que vem pola casa:
-Ferve o caldo?
-Ferve como o pote da bogada.
Era umha expressão para dizer que fervia ao máximo.
Também se utilizava outra expressão:
-Ferve a arroiões .
Os arroios quando baixa a água da chuva polo monte abaixo, borbolham e até podem formar cachão, na força da sua baixada. Assim se formam os arroiões.
Esta palàvra vinha no dicionário português e no Estraviz. E custou-me um pouquinho dar com ela, porque eu não sabia a etimologia nem a escrita exacta.
Mais doado foi dar com o pote da bogada, que ouvi tantas vezes sem saber de onde vinha, fui rastrejando cara atrás, como aquele jornalista do Cidadão Kane , até atopar o meu Rosebud, e velaí o que topei:
Bogada: Água fervida com cinza, que se bota à roupa ao lavá-la, para branqueá-la. (2) A mesma roupa branqueada.
O pote ao lume com a água para lhe pôr na banheira às sabas brancas de lenço ensaboadas, lavadas antes no rio, fervendo para lhe tirar o “moreno” da terra e do suor. O pote da bogada branqueava com o calor da água fervendo e a cinza. Mesmo o caruncho encarnado das camisolas suadas saia com a bogada. O caruncho negro, não saia. A bogada ficava toda a noite e, amanhã, a roupa ia ao clareio, após de a pasar pola água do rio para lhe tirar a cinza e volver a a ensaboar. Por último, recolhia-se do clareio e passava-se pola água para lhe tirar o sabão e estender no aramio, limpa como as calandras, ou as chirumas, recendendo a sabão e a ar.
Fascina-me toda a artesania do lavado da roupa. Quando eu era umha meninha, era travalho das mulheres e minha mãe e mais eu, passávamos muitas tardes no rio, lavando no lavadoiro de pedra, ajeonlhadas na “banqueta” de madeira. As tardes de rio, no verão, erão as mais fermosas, para mim.
No inverno, tínhamos que parar aos poucos, para quentar as mãos debaixo dos braços, porque, com o frio da água ficávamos sem “siras”, que é como se di em Vimianço quando os dedos, polo frio, não respondem e não podem agarrar.
No Priberam português não vinha reconhecida a palàvra bogada, mas sim no do senhor Estraviz, que recolheu com mimo tantas palàvras para nos devolver a realidade perdida.
Se não atopar as palàvras da minha infáncia, não poderia acreditar em a ter vivido.
Pensaria que a tinha sonhado, como tantas outras cousas…
As palàvras enchem de realidade minhas lembranças.
E aleda-me re-encontrar velhas amigas esquecidas.
Tags: Cousas minhas, Galiza

