
Venho de ler no blogue de Suso Lista, umha história de reis magos, reis vaghos, e guitarras.
De certo que me fisse lembrar muitas cousas da minha infáncia.
Quando minha irmã e mais eu éramos meninhas, aguardava-mos com verdadeira ilussão a manhã dos reis.
Em tal nuite coma hoje, deixava-mos um prato cada umha ao pé da janela do corredor , mais outro para minha tia Estrelinha, que lhe dera meningite de criança, amais de nascer de sete meses, e ficava sempre coma umha meninha.
Pola manhã, corriamos coma tolas cara o corredor e ficava-mos extasiadas olhando os pratos cheios de agasalhos e tiritando de frio com nossos pés descalços e as enáguas sem mangas, mentras polo vidro da janela, olhavamos a geada branca cubrindo os telhados e os coleiros da horta da Marina, com as verças tesas coma cartões vidrados.
Eu fum umha meninha muito afortunada. Ainda que da aldeia, meu pai tinha um serradoiro de madeira e defendiamo-nos bem, dentro do que cabia em aquela sociedade minimalista à força.
Tambêm sabião que gostava muito de ler e sempre me trazião algûm livro que era, para mim, coma um tesouro.
De todos os agasalhos de reis, lembro quatro, de quatro anos diferentes:
“Veinte mil leguas de viaje submarino” De J. Verne.
Um relógio Duward com esfera pequeninha e rodeada de adornos dentro do proprio vidro.
Umha boneca que abria e fechaba os olhos cumha carapuchinha branca rodeada de pelo açul
E, por último, um abrigo de pano de duas caras: Por umha era verde, e, pola outra, de quadrinhos verdes e amarelos.
Todo esto antes de ir parar ao Colégio maldito das freiras de Rubine 22-24.
Depois desso, já não guardo lembranças mais que do puto colégio e as freiras sádicas.
Minha mãe, contou-me umha história de quando ela mais os seus irmãos erão meninhos:
Meu avó, que era muito sério e cerebral, não queria que os filhos acreditassem nas parvadas dos reises magos nem farrapo de gaitas. Preferia mercar-lhe algo quando o precissavão sem nada mais. Minha avoa, não podia se mover por mor dumha ambólia que sofrira quando tive a minha mãe. Assim que os meninhos não tinhão reis.
Um ano, tanto chorarom e insistirom na teima dos reis, que o meu avó mandou-lhe que puxerão um soco na janela.
Eles puxeram na janela, mas por fóra, para lhe facilitar a faena aos reis magos.
Este, ao ver os soquinhos postos na janela, sentirom mágoa dos meninhos e deixarom um chouriço encarnado e recendente para cada um.
Até aquí, tudo bem.
Mas dou-lhe por se pór a chover coma quem emborca toda a nuite e, pola manhã, quando foram na procura dos seus agasalhos, atoparom um chouriço nadando dentro dos socos enchoupados…
Ao Suso, que era filho de marinheiro de Camarinhas, acabo de lhe perguntar e di-me que ele, o agasalho melhor que lembra, é umha pistolinha de plástico verde.
Velaí um poema de Miguel Hernández que me parece tenro, verdadeiro e fermoso.
Adicado aos super-mega consumistas reis magos do 2007:
LAS DESIERTAS ABARCAS
Por el cinco de enero,
cada enero ponía
mi calzado cabrero
a la ventana fría.
Y encontraba los días
que derriban las puertas,
mis abarcas vacías,
mis abarcas desiertas.
Nunca tuve zapatos,
ni trajes, ni palabras:
siempre tuve regatos,
siempre penas y cabras.
Me vistió la pobreza,
me lamió el cuerpo el río
y del pie a la cabeza
pasto fui del rocío.
Por el cinco de enero,
para el seis, yo quería
que fuera el mundo entero
una juguetería.
Y al andar la alborada
removiendo las huertas,
mis abarcas sin nada,
mis abarcas desiertas.
Ningún rey coronado
tuvo pie, tuvo gana
para ver el calzado
de mi pobre ventana.
Toda gente de trono,
toda gente de botas
se rió con encono
de mis abarcas rotas.
Rabié de llanto, hasta
cubrir de sal mi piel,
por un mundo de pasta
y unos hombres de miel
Por el cinco de enero
de la majada mía
mi calzado cabrero
a la escarcha salía.
Y hacia el seis, mis miradas
hallaban en sus puertas
mis abarcas heladas,
mis abarcas desiertas.
