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Imos lá

13/02/2008

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Após der seis anos em Marrocos, são muitas as imagens, as sensações, os aromas e colores que traz a lembrança.

Hoje vou-vos levar comigo de viagem, desde Marrakech ao deserto de dunas -erg- e também de pedras negras que cobrem a fina areia -hammada-. São as duas castes de deserto que podemos ver em Marrocos.

Não sei se as minhas imagens o podem transmitir, mas Marrocos é um pais que te eleva o espírito, faz-te sentir jeito tão especial que é muito difícil de explicar: É a sensação de ficar só, na soedade total, e ao mesmo tempo arroupado polo agarimo e esse jeito que tem a gente de se fazer querer e de fazer que te sintas querido.

A primeira vez, asusta. Mas , se não te botas atrás, engancha.

Engancha como umha droga psicotrópica.

Por eso tardei tanto em pôr as imagens da minha última viagem.

Porque tinha um mono que não podia aguantar.

Bem. Vou-vos pôr as imagens em duas tandas:

Na primeira, veredes as medinas de Fés e Marrakech,com suas ruas estreitas ateigadas de gente, burros, bicicletas e toda caste de mercadorias, e até umha escola de meninhos, na medina de Fés. Nos montes de cedros do Meio-Atlas, os macaquinhos que vem espilidos quando tem fame e há movemento perto. As ruinas romanas de Volubilis merecem, elas soas, umha viagem…
E a Praça de Yemaa El Fna, o umbigo do mundo da fantasia que ainda sobrevive…

As próximas imagens, são do caminho desde Marrakech até o erg-deserto de dunas de Merzouga.
Todo o caminho transcorre por um deserto de areia cuberta por pedras negras-hammada-, por montanhas e vales de rios que formam oasis viçosos no meio da nada.
Também passa ao pé das montanhas do Atlas, com os curutos cubertos de neve, como um decorado de fondo ao deserto e aos vales de palmeiras e cultivos.
O povoado de Aid Ben Haddou, um Ksar, ou cidade fortificada, que agora fica quase abandonada, só com os velhinhos que se resistem a deixar suas casa para irem às novas que se construem à outra banda do rio seco, na beira da estrada.
Logo o deserto, levantar-se de madrugada para ver o espectáculo do amencer sobe as dunas, a tarde de treboada, pola banda algeriana, que fica a uns quilómetros de areia, o sol-pôr, a lua que sae…Não hà palàvras.
A aldeia Gnawa de Khamilia, no centro da nada…Os gnawas que conservam suas tradições curativas a travês da música:
Soudani, soudani…lembrando o tempo em que vieram de Sudam para trabalharem de escravos nas minas de ferro…

Estampas

02/02/2008

Pois aí vão mais estampas das pequenas cousads do Rif.

Estampas dumha terra especial, diferente, que não é mais que umha face da terra na que tudos vivimos. Umha face pola que sinto umha especial tenrura:

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Umha Rifenha verdadeira

11/01/2008

Ainda que eu me considere rifenha de coração, agora já não sou a Rifenha de Vimianço. Agora em Vimianço, há duas rifenhas verdadeiras, umha da tribo Bakoia por seu pai e Takrait por parte de mãe.

Assim que, já vedes. Pedigree rifenho polas quatro esquinas.

Bom, pois esta rifenhinha de primeiro da ESO, gosta muito de fedelhar na rede e é muito amiga, assim que, quando ela goste, pode escrever entradas no escunchador, para que saibades mais cousas da sua vida aquí, em Vimianço, e também do Rif .

Este é seu primeiro post, e eu deixo-a sozinha, para que ela escreba o que queira e como queira.

Al Hoseima

Al Hoseima (en árabe الحسيمة, ‘Al-Hoseima’ que significa ‘lavanda’ e en español Alhucemas) é unha cidade e provincia de Marrocos.

Está situada na costa marroquina mediterránea, na parte oriental da baía e xunto ao penedo de Alhucemas.

  • Historia

A actual A Hoseima tivo a súa orixe nun asentamento insignificante no século XVII, pero non é unha verdadeira cidade ata despois do desembarco de Al Hoseima levado a cabo polas tropas españolas durante a guerra do Rif (1926). Con todo, daquela chamóuselle Villa Sanjurjo, polo xeneral Sanjurjo, un dos protagonistas dese desembarco.

Durante a II República pasou a denominarse Villa Alhucemas, aínda que logo o réxime franquista restituíu novamente o nome de Villa Sanjurjo, que xa se mantivo durante o resto do protectorado español, ata o ano 1956 en que Marrocos accedeu á independencia. A partir desa data pasou a chamarse Al-Hoseima, en árabe, segundo a denominación marroquí.

Como legado da cultura española, quedan na vila numerosos edificios construídos durante a época do xeneral Sanjurjo. Así, atópase nesta cidade o Colexio Español Melchor de Jovellanos, dirixido polo Estado español. Este conta cunha arquitectura similar a edificios do sur de España e foi en orixe un cuartel militar.

Na actualidade é unha cidade de vacacións de verán, frecuentada polo turismo, na súa maioría do norte de Europa, debido ás súas fermosas praias, en especial Praia Quemado, e á beleza da súa contorna, entre a cordilleira do Rif e as augas do Mediterráneo. Conta con instalacións turísticas destacadas, como o Club Med, o complexo Chafarinas ou o hotel Mohamed V.

Con todo, a cidade atópase afastada do nivel de desenvolvemento do resto do Marrocos turístico, cunha importante falta de infraestruturas e de promoción. Á marxe das estradas que chegan á cidade, no verán establécese un servizo marítimo que comunica a cidade con Málaga, nun treito de aproximadamente unhas 11 horas.

Al Hoseima e os seus arredores sufriron un importante sismo de 6,5 graos na escala Ritcher o 24 de Febreiro de 2004, que causou graves danos materiais e provocou a morte de cando menos 560 persoas.

  • Poboación:

Malia que se estima en 60.000 habitantes a súa poboación, non se pode saber con exactitude, pois existe un alto índice de poboación que vive no campo. A división de poboación na rexión de Al Hoseima é a seguinte: Al Hoseima 55.216, Imzurem 9.642, Bni Buaiach 13.128, Targuist 9.593, mais unha poboación rural que debe roldar os 297.000 habitantes (2005).

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Tardes de Ramadam

18/09/2007

Cada dia, as rifenhas vem consultar a hora da pregária de Al Magrib, que é a pregária que marca o fim do jejum.

Cada dia a hora é diferente, e varia duns lugares a outros. Consultamos na página dos muçulmanos espanhois, Webislam, e cada dia varia um ou dous minutos, mais ou menos. O relógio da lua, que goberna a vida no islão, não é o mesmo que fabricam nas relojarias suiças. Tem outros ritmos que variam dia a dia, mes a mes, ano a ano.

Aí polas cinco da tarde, Hayat empeça jà com a “Harira”, a sopa que, junto com as chebbakiyas, serve para romper o jejum, alomenos no Rif, que em cada lugar o alimento primeiro pode ser outro. Noutras partes de Marrocos, antes da harira comem dátiles e bebem leite batido, coma aquele que se fazia antiguamente nas casas de labradores da Galiza, batendo cum pau que levava numha ponta umha rodela de madeira, o leite que havia dentro dumha ola de barro.

Logo mantinha-se assim, fresquinho, para beber nas tardes de verão quando vinhamos cansos e acalorados de apanhar o trigo, ou as patacas.

Tudo esso, para nós, jà não existe. Agora mercamos na tenda o iogur e todas essas variantes que tem tantas cousas boas para a saúde ???, mas, em Marrocos, ainda se bebe, para dar as bemvindas a umha casa, ou para se refrescar no verão. Nas portas dos Mercados, hà sempre algumha mulher ou algúm homem vendendo cuncas de “leben”, qu é como lhe dim a esta bebida , que se consumem alí mesmo. Mesmo na porta das mesquitas e, desde logo, em todas as leiteriaso hà para beber ou para levar.
Bom, pois aquí não hà leben, mas a harira de Hayat, não falta cada tarde. Após de romper o jejum traz umha potinha para o Suso e para mim.

È umha sopa rica em ingredientes, e muito reconfortante:

Leva ólio, carne, gravanços, ápio,tomate, salsa, cominhos, pementa preta, fideus finos, cebolas , e, a última hora, engadese-lhe um óvo e farinha previamente diluida em água. É dumha elaboração lenta e artesanal.

Tem um sabor muito especial e quenta bem o corpo.

Hoje , segundo o webislam, a hora de Al Magrib, é às 8 e 20 da tarde , hora de Madrid.

Até essa hora, elas não comem nada , nem bebem nada. Pola nuite, depois da harira, comem várias veces tortilha, peixe, chà com pastelinhos, biscoito, e até de madrugada se levantam para tomar café com leite e bolachas, para poder resistir todo o dia.

Muita gente diz: Que parvada!

Mas eu penso que é bom manter as tradições, as crenzas, a memória, sempe que, como neste caso, seja por própria vontade . Umha ilha de Ramadam em Vimianço. Quem o ia dizer…?

 

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A terra treme.

12/02/2007


Pois sim. A terra treme também, como trememos nós.

A terra treme quando se encontram duas placas tectónicas diferentes e se roçam, mais ou menos dócemente.

É o reflexo, a grande escala, do que passou quando ti mais eu nos encontramos e tudo tremiu, com intensidade 9 na escala de Ritcher, derrubando muros, edifícios, cidades enteiras, dentro de mim, e deixando tantos mortos entre os escombros…

Hoje tremiu a terra no Cabo São Vicente. Eu senti dançar o meu imac e pensei que era com a força das canções de Ché Sudaka, que tava a escuitar mentras escrevia sobre eles em historiasderavaleiros.
Mas agora vem o Suso- a realidade cotiã- para me dizer que seica diz o teletexto que fui o tremor do Cabo São Vicente.

A onda chegou desde o Al Gharb ao Al Magreb, percorrendo caminhos subterraneos.

Eu, que viví miles de sacudiduras que vam desde o 6.3 até o 3.9 de hà dias nesta cidade, chantada acima da confluência da linha que une-ou divide- as placas europeia e africana, -ti Europa. Àfrica, eu.-nunca tive medo dos tremores, mália ver os mortos, amoreados na fábrica de geo do porto, por não ter sitio na morgue do hospital, ou os velhinhos sós, sem casa nem família, no centro de acolhida de meninhos orfos , habilitado para os acolher.

Vi e viví suas caras, inexpressivas, seus corpos encolhidos ,nas camas apertadas na sala que ficava pequena para tanta gente.
Sua olhada tranquila e seu sorriso de agradecemento, apenas insinuado, quando colhiam as cousas que Hayat e mais eu lhe recolheramos para eles.
Mesmo sua indiferéncia frente ao que não precisavam para si.
“Eu não preciso. Da-lha a aquele, que não tem.”

Quantas leições de vida aprendi dos meus vizinhos rifenhos do campo, durante o terremoto…

Dos vizinhos da cidade, também aprendi como se pelejavam pola ajuda dos camiões, como aguantavam cada nuite nas “jaimas”, durante messes, e algumhas cousas bem divertidas também.

Coma quando meu vizinho de enfrente, Mustafa -daquela ainda viviamos na rua das Nações Unidas -Umma Mutahidda- corria diante das vizinhas do lado, três moças e a mãe, que compartiam com ele e a família -mulher e três meninhos, um deles de dous messes- o ilhó que hà no cruzamento entre a rua que vai ao “Souk de los Pinos” e a que sobe cara o bairro Marmuxa, o mais alto da cidade. Pois alí, no ilhó, plantarom Mustafa e as vizinhas suas “jaimas”, em boa vizinhanza.

Mas, o demo, que não tem parada, quixo que umha nuite Mustafa saisse da tenda para mejar e, ao volver, às escuras, entrou na das vizinhas, deitou-se e agarrou-se a umha das moças pensando que era sua mulher.

Para o outro dia, amahã, eu tava no meu balcão regando nas plantas, e vejo passar a Mustafa diante, engurrunhado, coas mãos na cabeça, e às quatro mulheres berrando atrás.

Chamei por Hayat, e ela faz-me de tradutora. E ainda bem que as mulheres não levavam nada na mão, porque, entre as três, iam-lhe dar umha malheira boa.

Assim é a vida.

Tem alegria, tristeça, dor,felicidade…mesturadas em proporções que variam.

O que nunca deberia faltar é, ao meu ver, o humor.

Ele faz que tudo seja relativiçado e mais levadeiro.

Ponha umhas pingas de humor na sua vida…

De consumo, consumidores , consumidos e “dias de”

07/02/2007

Há poucos dias celebramos o dia dos cinco minutos de apagamento das luzes.

Há muitos anos. Polo menos, mais de quince, ía eu um dia caminhando pola Rúa da Senra, em Compostela, e achegou-se um moço cum microfone na mão, e pediu-me se lhe respondia a umha pergunta. Disse que era da Rádio Galega.
-Bom.

-Que opina você, como consumidora, de que El Corte Inglés abra os domingos e dias de férias?

Semelhava umha pergunta inocente , mas não o era.

Não polo entrevistador, que fazia um trabalho de rutina, coma cada dia, para ganhar seu salário.

Mas pola visão da vida que implicava a pergunta.

-Perdoa, mas, antes de consumidora, sou ser humano, mulher, trabalhadora, mãe……

Consumo o que preciso para me sustentar e ter umha vida digna, mas esso não me converte em “consumidora”. Que eu saiba, consumidora não é umha clase social, nem umha condição, nem umha prerrogativa innata, nem adquirida. E, com o dinheiro que ganho, abonda-me ir a El Corte Inglés umha vez ao ano. Os dias da semana, sobram-me tudos.

Como ser humano, opino que as pessoas tem de ter tempo livre para serem felices. Como mulher, opino exactamente o mesmo. Como trabalhadora, solidarízome com os trabalhadores que tem dereito a ter seus dias de férias coma caisquer operário.Para esso as folgas, revoluções e sofrimentos das claes operárias de todo o mundo ao longo da história. Como mãe, solidarízome com as empregadas e empregados que tem filhos e precisam tempo para os atender e os disfrutar.

Nos anos que foram passando desde aquele dia, cada vez , as pessoas do chamado “primeiro mundo” somos menos cidadãos e mais consumidores.

Mas , para que haja comsumidores , tem de haver consumidos .

Consumidos em África, onde as petrolairas francesas Elf, Total e demais estrucham aos paises e as pessoas para que nós podamos correr em nossos carros até para ir mejar e elas possam medrar mais e mais, numha carreira sem fim.

Consumidos no Congo-sempre àfrica- para que velhos, meninhos e demais gente escraviçada, deixe a vida extraendo o coltán que precisamos para os nossos telemóveis , que mudamos cada mes, por aquilo das novas prestações , ou pra as nossas play-stations. Aquí são as grandes companhias de alta tecnologia as que engordam seus dividendos.

Consumidos na Guiné, onde tem umha ilha Malabo, que aboia acima dumha bolsa de petroleo e morre de fome e de enfermidades porque todas as farmácias do pais pertencem a um familiar do presidente e, quanto menos higiene, mais negócio para a família. Tudo, esso sim, com o consentimento do nosso “primeiro mundo”.

Ta muito bem fazer “dias de”. Parece-me bem para chamar a atenção.

Mas, mentras não mudemos a mentalidade de consumidores pola de cidadãos, as cousas irão de mal em pior.

Desculpas por vos botar este discurso.

Mas é que me ferve o sangue pola gente deste continente onde agora vivo, ainda que seja aquí no norte, mais perto dos consumidores que dos consumidos.

 

Recuperando de Arredemo. O reino Mandinga

25/11/2006

“Sundiata Keita (ou Sundjata Keita, ou ainda Soundiata Keita) era o Imperador do Mali, nascido em 1190 em Niani (Reino Mandinga, atual Guiné) e faleceu em 1255. Filho de Naré Maghann Konaté (também conhecido Maghan Kon Fatta ou Maghan Keita) e Sogolon Djata (a mulher búfalo).

O épico de Sundjata é contado pelos griots, através da tradição oral.”

Este pequeno texto é o que se pode ler na wikipédia sobre o reino mandinga .

Também:

“Los Mandinga, Mandinka Mande Jula dependiendo del país en el que viven son un grupo étnico de África Occidental. Mandinga es también el nombre de su lengua. En el siglo XIII eran gobernados por Sundiata. Durante el mismo siglo se extendieron por un gran área en el actual Mali constituyendo un importante reino.

En la actualidad existen cerca de tres millones de mandingas residiendo en diferentes países del Oeste de África: Burkina Faso, Costa de Marfil, Gambia, Guinea-Bissau, Liberia, Mali, Senegal, y Sierra Leona.

Durante el periodo de la colonización de América muchos de ellos fueron enviados al nuevo continente como esclavos. En la tradición campesina y gauchesca rioplatense, al diablo se le denomina “Mandinga”, y se representa de color y vestiduras totalmente negros. Vulgarmente se le dice mandinga a quien posee el miembro grande.

En Estados Unidos y Europa uno de los mandingas más conocidos es posiblemente el personaje Kunta Kinte de la serie de TV y novela Raíces, escrita por Alex Haley, descendiente del propio Kunta Kinte. Martin R. Delany, un abolicionista radical del siglo XIX también era de descendencia mandinga”.

Velai como a “cultura” europeia criou fronteiras e escraviçou seres humanos mesmo negando-lhe a condição de humanidade.

Se vocês escutão a kora mandinga de toumani Diabate, ou a voz prodigiosa do príncipe Salif, descendente directo do imperador Soundiata Keita, que no século XIII aboliu a escravitude no seu império, perceberão um bocadinho melhor a parvoíce da vaidade do etno-centrismo baseado na maior poténcia económica e capacidade tecnológica . Se escutão as palavras de Ali Farka, e suas composições musicais, mágicas, perceberão que a “cultura” não reside exclusivamente nas tertúlias e cenáculos do nosso pequeno mundo.

Que fóra, também hà muita vida.

recuperando arredemo. Alí Farka Touré

25/11/2006

Ao contrário que Salif Keita e Toumani Diabaté, Ali “Farka” Touré, não gostou sair por muito tempo da sua vila, Niafunké.

Entrevista a Ali Farka Touré publicada em “Crónicas da Terra”

Crónicas da Terra

Músicas sem Fronteiras


julho 20, 2005

Ali “Farka” Touré – uma lição de vida em 180 minutos, na próxima sexta-feira em Lisboa


Não foi fácil falar com Ali Farka Touré. Não é todos os dias que este senhor de 60 anos tem acesso a um telefone, no Mali; e nem sempre é fácil compreender o seu francês, falado com longas pausas (próprias de quem se levanta com o nascer do sol e se deita com o crepúsculo) e frases nem sempre concretizadas. Afinal Ali Farka Toure, além de excelente músico, é um verdadeiro homem do campo.

O Mali é um país de músicos – Você, Oumou Sangare, Toumani Diabaté, Salif Keita. Será que isso tem a ver com o facto de ao longo de séculos vigorar a cultura musical griot (N.R. músicos que tocavam para os imperadores do Império Mandinga de origem muçulmana que se estendeu pela África Ocidental a partir do Sec XIII)?

O Mali não é um país de músicos, mas há músicos no Mali. É um país histórico onde existem etnias distintas. Eu sou sonrai, estou longe de ser griot e de ser escravo. Aqui não existem fronteiras. Cada pessoa traça o seu destino ao fazer música. Para mim a música é uma filosofia de educação e de amor.

É verdade que, à semelhança de Salif Keita, os seus pais opuseram-se ao facto de tocar, pelo facto de fazer parte de uma classe nobre?

Os meus pais eram realmente contra o facto de eu ser músico. Durante a minha carreira sempre tive receio de pegar na guitarra enquanto me encontrava ao pé da minha mãe. É que antes de ser músico já era agricultor e pilotava barcos. Profissões mais úteis à nossa etnia.

Apesar de ter tido uma carreira brilhante como músico fora do Mali, nunca deixou de ser agricultor. E parece que foi o dinheiro que ganhou com a música que lhe permitiu comprar máquinas modernas para melhor fazer a lavoura. Verdade?

Sim. Toda a vida estive ligado à agricultura e todo o dinheiro que ganho com a música tenho investido na agricultura. Não devemos pôr açúcar no mel (N.R.: metáfora que significa não devemos aplicar o dinheiro que ganhamos com a música, na música) porque isso daria uma mistura demasiado doce. A música permitiu a evolução do meus métodos de trabalho agrícolas. Até porque não podemos fazer música se não tivermos a barriga cheia, não é?

Parece-me que continua a preferir a agricultura à música.

Sim, porque a agricultura é uma cadeia de vida. Os animais comem, os homens comem. Sustenta um ciclo maior que a música. Esta é boa apenas para quem toca e escuta.

Vivendo numa vila (Niafunké) situada à entrada do Sara, em que os terrenos são muito arenosos, gostaria de saber o que é que planta.

Vivo perto do deserto, mas também perto do rio o que me permite ter terrenos férteis. Aqui posso plantar tudo o que preciso: trigo, milho, feijões, batatas, mangas, goiabas, tangerinas, laranjas, papaias… e, claro, também pesco.

Não tem dado muitos concertos fora do seu país e por diversas vezes anunciou retirar-se da vida artística. Isso tem a ver mais uma vez com a agricultura, ou com o cansaço das digressões?

Não digo que não dê concertos, mas preciso em primeiro lugar terminar todas as culturas, todos os trabalhos agrícolas. Não posso permitir-me a fazer aquilo que fazia há 10 anos atrás, altura em que comecei a tocar pelo mundo inteiro e a estar muito tempo fora de casa. Tenho 11 filhos, sou avô de 8 crianças, tenho muitas bocas para alimentar. Ainda viajo, mas só durante uma semana. O máximo é um mês. Depois volto.

Nunca sentiu vontade de viver na Europa, à semelhança de muitos músicos africanos?

(um grande assobio, como se isso fosse totalmente impossível). Nunca. Não gosto do estrangeiro, gosto de fazer o meu trabalho e de regressar à minha casa no fim do dia. Adoro o espaço, a terra, nunca poderia viver num apartamento. Tenho de estar perto da natureza.

Quando colaborou com o Ry Cooder em “Talking Timbuktu” sentiu que tivesse aprendido alguma coisa?

Não. Nada.

E o que é que você lhe ensinou?

Ensinei-lhe algumas coisas, quanto mais não seja o facto de ter descoberto a essência da música africana. Ele vem ao Mali em breve, no ano 2000, e ficará cá durante duas semanas.

Pensa que o Taj Mahal e o Ry Cooder têm ainda muito a aprender consigo, sobretudo na forma de tocar guitarra?

Entre o Ry Cooder e o Taj Mahal existem muitas diferenças. Durante os anos em que viajei pela Europa e Ásia, o Ry Cooder tornou-se num génio da música ocidental. É um dos melhores para mim, porque faz aquilo que deve ser feito. É a sua vida. O Taj Mahal é um professor, não meu, mas dos jovens que ensina. Tenho muito a aprender mas não há-de ser com ele. Nós somos de etnias diferentes, temos culturas diferentes, almas diferentes. Mas ele é muito aberto e generoso e isso agrada-me. (N.R: apesar de Taj Mahal ter nascido nos Estados Unidos, Ali Farka Touré considera-o um africano a viver na América, devido ao sistema de crenças em que acredita, cujos antepassados traçam as origens do ser humano).

A sua música é influenciada por experiências espirituais. Segundo consta, o Njarka (pequeno violino local de uma corda) é um instrumento bastante perigoso, porque quando mal usado pode evocar os maus espíritos. É capaz de explicar?

O Njarka é o instrumento mais perigoso de África e do Mundo. Quem o toca nunca poderá aspirar a ter grande longevidade. É um bom instrumento e ao mesmo tempo um mau instrumento, porque quem não tem cuidado pode ficar louco. Conheço muitas pessoas que enlouqueceram. A primeira vez que peguei no Njarka tinha 12 anos, nessa altura ao brincar com o instrumento quase morri. O Njarka deixou-me imobilizado e fui picado por uma cobra.

Pensa que a música é uma forma de chegar ao mundo espiritual?

Não acho. Tenho a certeza. É como entrarmos dentro de água, num mundo real que não é totalmente visível aos nossos olhos.

Alí “Farka” – O Burro- debia este alcume a ser forte e constante em seu trabalho.

Finou este ano, mas deixou-nos para sempre os sões da sua kora mágica.

Savane mp3

Preciosa.

E velaí um dos griots mais conhescidos: Lankandia Cissoko:


Recuperando arredemo. Toumani Diabate

25/11/2006

E agora que as equipas dos africanos da África volver à casa- ficam as dos africanos da França, do Brasil…-vou falar do último desta série de músicos mandingas, ou malinkés, dos que gosto tanto.
Este não é um labrego, nem um príncipe, mas o representante dumha saga de griots malinenses que tangem a kora até lhe arrincar os seus sões mais delicados e intensos…A sua mestria remonta-se a setenta gerações, segundo a lenda-história da família Diabaté.
Diz a lenda que aló polo século XIII um principal africano que ia numha expedição militar, entrou numha cova na procura dumha doncela e, no seu lugar, atopou umha kora. Um griot , da familia Diabaté, que vai no seu grupo , é o que a toca por primeira vez.
Despois de setenta gerações, chegou Toumani, o griot de kora do século XXI.
Herdeiro de oitocentos anos de tradição oral, ele consegue fazer da da sua antiga música um símbolo de modernidade, junto coa Symmetric Orchestra,que inclui músicos de países do antigo Império Mandinga (Mali, Burkina, Guiné, Senegal, etc.), reconstruindo culturalmente o que a colonização destruiu.
Ele começou a tocar aos cinco anos, co seu pai, Sadiki Diabaté, considerado em toda a África Occidental coma o rei da kora. Aos trece anos, dou seu primeiro concerto, e é a través de França e Inglaterra, aló polos anos oitenta, onde começa a sua carreira internacional.
Ele tocou com Taj Mahal, Ballaké Sissoko,e, no ano 2005, editou um disco com Ali Farka Touré: In the heart of the moon .
Se escuitar, decerto escutaredes a música do coração da lúa. Da lua de África, que fui a que nos viu a tudos por primeira vez, tentando nos erguer para caminhar e correr mundo…

Ali Farka e Toumani Diabaté

Umha mostra da sua música:

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Recuperando de Arredemo. Salif Keita

25/11/2006

Estes dias de futebol, anda Alemanha cheia de africanos. Homens-Torre fortes e veloces coma lóstregos, que dão tudo de sim para lhe levar um bocado de ledícia aos seus siareiros,sempre ausentes na periféria do nosso redondo mundo…
Pois esso. Que gosto muito de os ver jogar contra as equipas sosas da Europa, ja tão conhecidas a força de ver aos jogadores -os Beckham, os Raules e os Ronaldos-até no caldo. Também gosto da minha cara Argentina, por suposto, e de algúm dos do Brasil…
Seguramente entre os jogadores das modestas selecções africanas, haverá algúm jogador de etnia mandinga, coma o músico que hoje quero apresentar-vos.
Ele sim é mandinga, dumha das famílias mais aristocráticas da sua etnia. Algo assim coma um príncipe.
Mas, na sua vida, há duas grandes contradicções…A primeira, o seu proprio nascemento. De pais mais negros que o carvão, como é natural,saiu alvino. Branco coma o leite. O seu pai sentiu-se maldicido pola peor mã sorte, segundo a tradição, e não comprendia por que a ele lhe tinha que pasar algo assim.
O raparigo fui medrando entre as milheiras de seu pai, onde caçava cotovias e babuinos, mentras as suas cordas vogais se musculavão até soar coma um orgão barroco numha catedral…
Mais tarde, quer adicar-se à música. Numha família da aristocrácia mandinga, os músicos tangem a kora para eles escuitar. Não anda um membro da família a tocar por aí , coma um calquera-coma um titiriteiro que diria minha avoa…-
Disgusto tremendo e fugida a Bamako onde se mete nas orquestras que tocavão polos locais de moda e incorpora guitarra eléctrica e ritmos de todo o mundo…
Assim até o 1979, ano no que emigra ao oeste, e vai parar a Abidjan. De alí a Washington, e mais tarde França. 35 anos adicado à música.
Logo, um dia, coma case todos que podem, decide volver…Outravolta a Bamako. Contacta cos mestres “griots” mais expertos, junta-se co tangedor de kora Toumani Diabaté e de gnoni, Mama Sissoko, construe um estudo de gravação na sua casa e tira o seu travalho mais completo, que leva o nome do seu avô: M’Bemba.
A sua história, mesmo semelha umha dessas histórias iniciáticas, nas que o protagonista, vai embora, percorrer os caminhos, e logo volve à sua aldeia, mais savio, para contar as marabilhas que descobre, arredor do lume da lareira tribal…
Essas histórias, dos herois que volvem, depois de tantas aventuras, coma o Ulisses da Odisseia, são umha metáfora da própia vida. Há que se independiçar dos critérios familiares, culturais e da tradição, para volver a os atopar, quando ja não nos fagão sentir a sua pressão, mas a sua alegria…