
Há poucos dias celebramos o dia dos cinco minutos de apagamento das luzes.
Há muitos anos. Polo menos, mais de quince, ía eu um dia caminhando pola Rúa da Senra, em Compostela, e achegou-se um moço cum microfone na mão, e pediu-me se lhe respondia a umha pergunta. Disse que era da Rádio Galega.
-Bom.
-Que opina você, como consumidora, de que El Corte Inglés abra os domingos e dias de férias?
Semelhava umha pergunta inocente , mas não o era.
Não polo entrevistador, que fazia um trabalho de rutina, coma cada dia, para ganhar seu salário.
Mas pola visão da vida que implicava a pergunta.
-Perdoa, mas, antes de consumidora, sou ser humano, mulher, trabalhadora, mãe……
Consumo o que preciso para me sustentar e ter umha vida digna, mas esso não me converte em “consumidora”. Que eu saiba, consumidora não é umha clase social, nem umha condição, nem umha prerrogativa innata, nem adquirida. E, com o dinheiro que ganho, abonda-me ir a El Corte Inglés umha vez ao ano. Os dias da semana, sobram-me tudos.
Como ser humano, opino que as pessoas tem de ter tempo livre para serem felices. Como mulher, opino exactamente o mesmo. Como trabalhadora, solidarízome com os trabalhadores que tem dereito a ter seus dias de férias coma caisquer operário.Para esso as folgas, revoluções e sofrimentos das claes operárias de todo o mundo ao longo da história. Como mãe, solidarízome com as empregadas e empregados que tem filhos e precisam tempo para os atender e os disfrutar.
Nos anos que foram passando desde aquele dia, cada vez , as pessoas do chamado “primeiro mundo” somos menos cidadãos e mais consumidores.
Mas , para que haja comsumidores , tem de haver consumidos .
Consumidos em África, onde as petrolairas francesas Elf, Total e demais estrucham aos paises e as pessoas para que nós podamos correr em nossos carros até para ir mejar e elas possam medrar mais e mais, numha carreira sem fim.
Consumidos no Congo-sempre àfrica- para que velhos, meninhos e demais gente escraviçada, deixe a vida extraendo o coltán que precisamos para os nossos telemóveis , que mudamos cada mes, por aquilo das novas prestações , ou pra as nossas play-stations. Aquí são as grandes companhias de alta tecnologia as que engordam seus dividendos.
Consumidos na Guiné, onde tem umha ilha Malabo, que aboia acima dumha bolsa de petroleo e morre de fome e de enfermidades porque todas as farmácias do pais pertencem a um familiar do presidente e, quanto menos higiene, mais negócio para a família. Tudo, esso sim, com o consentimento do nosso “primeiro mundo”.
Ta muito bem fazer “dias de”. Parece-me bem para chamar a atenção.
Mas, mentras não mudemos a mentalidade de consumidores pola de cidadãos, as cousas irão de mal em pior.
Desculpas por vos botar este discurso.
Mas é que me ferve o sangue pola gente deste continente onde agora vivo, ainda que seja aquí no norte, mais perto dos consumidores que dos consumidos.