Monthly Archives: Junho 2006

O riso

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Ao fim decidi ir à cea. Quando cheguei, as pernas tremião-me e o mar, iluminado pola lua, fazia-me sentir muito triste…

Mas velaí que entarmos no comedor, e tudo mudou:

Resulta que tinhamos a ceia encarregada , segundo tres possivilidades de escolha.

E aí veu o “quilombo bárbaro” : Os camareiros a perguntar: “Un, deux, trois”. A gente a pilhar o primeiro que ia saindo da cozinha,os do um, os do dous, os do tres…Ninguêm lembrava o que tinha o seu “Menu” comiaõ do um, do dous, do tres…Sopa de legumes, ensalada marroquina, guiso de carne com cirolas passas…Os profesores de árabe, que não sabião o que era o “entrecot” até que o vem e diz: “Ah, Cotelette!”…

Ao fim, comemos muito, rimos mais,e, por arte e magia do riso, foi-se embora a misantropia, não sei a onde…

O riso é um dom dos deuses. Mãgoa -e sorte- que só os humanos podamos rir-nos…Há quem di que tambêm rim as baleias. E os arroazes…Não sei que seria da minha vida sem o riso e o humor…Não pagaria a pena de ser vivida…

Tou desejando chegar a Vimianço. E a Camarinhas.

Para me rir com esse riso que ninguêm mais percebe nem comprende totalmente… Coa minha irmã, com minha mãe, co meu Susinho…Há um humor universal, mas também das culturas, dos povos, das famílias,das pessoas…

O humor é a pátria mais auténtica, natural e verdadeira.

O humor é o que nos faz seres humanos.

O humor é linguagem universal e laço de união entre estes poufinhos que andamos a viver coma se for gram cousa e, no fundo, somos apenas um riso bem botado…

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Misantropia

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De vez em quando, sem saber por que, dão-me uns ataques repentinos e viscerais de misantropia.

Gostaria de fugir a umha cova do monte, coma um anacoreta, e alí deixar que o tempo esvare, paseninho e maino, coma a água dum regato.

Umha cova destas que há no Rif, antigas minas de extracção de ferro dos espanhois e portugueses, que abrem sua boca escura nas abas das montanhas arrubiadas, de pedra ferrenha…Que bem se debe de ficar lá, sozinha,dentro da terra, sem ouvir a nemhúm ser humano, só o chiar dos passaros e o deslizar-se suave dos lagartos e das salamanquessas…

Adoito tar sozinha. E quando, por umhas e outras cousas tenho que fazer vida “social” fora das horas de travalho, vai-me medrando um desassosego no peito, umha falta de alento, um desacougo, que não sou quem de dominar.

O peor é que a gente gosta da minha companha. E agradece que fique là, com eles, não sei muito bem por que…

Gosto da gente para dançar, ou brincar, ou tomar o sol e merendar na beiramar, ou para escuitar suas cuitas…Mas a gente, por norma, gosta de falar e falar, de cousas sem jeito, que, depois dumha meia hora, ja me aloulam. Adoitam ser conversas tristes, disfraçadas de riso ou formalidade que sempre diz o mesmo, mas de jeito só um bocadinho diferente…

Ao fim, saves tudo o que vão dizer, como vai seguir o tema, em que ponto vai aparecer cada tic, ou cada toc, e vas pôndo-te mais e mais triste, até volver à casa, ao refugio, com essa sensação de ter malgastado a serotonina sem ter produzido endorfinas, antes bem, ter perdido as poucas que guardavas coma um tesouro difícil de conquistar…Depois, dias de tristura e desassossego, até não se save quando.

Hoje tenho umha cea de fim do curso. Não sei ainda o que fazer . Outravolta o pánico tenta se apoderar de mim…

Tenho ainda tres horas por diante. Quem puidera não ter que se “relacionar” com ninguém agás por gosto de o fazer…

E não quero despreçar aos meus companheiros, aos que quero muito bem. De coração.Só quero reivindicar a misantropia, ainda que seja transitória e pontual, coma umha forma de vida, que, cada vez é mais difícil de manter…

O lume novo

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A festa do lume novo aquí, no Rif, não se celebra. Mas nós – os companheiros do colegio espanhol e outros que andão por aquí – fomos onte cear à praia.
Comemos sardinhas mediterráneas-mais pequeninhas e com menos graxa-, bebemos vinho,fixemos lume, banhamos no mar, dançamos…
Também havia muitos amigos rifenhos – mágoa que não amigas, agás as mulheres dos profesores de árabe – e as moças andavão algo escasas, para os homens novos que andavão por alí, dançando, a ve-las vir… Faltava o elemento feminino e até os moços, gostavão de falar com nós,assim, coma se for suas mães…A falta de pão…
È triste umha sociedade sem a presença das mulheres,não é? É do que menos gosto do Rif. Sou ainda muito antigos, mesmo que morem numha cidade….Mas ainda se conhecem por tribos e famílias e as mulheres sou as depositárias da honra familiar. -Lembrades?
” El cristal cuando se empana , se limpia y vuelve a brillar. La honra de una mocita se mancha y no brilla más. Cuando un hombre se la quita”
É da minha mocidade. Não faz tanto tempo…-
Se algumha moça rifenha, em geral,anda coas calças apertadas demais, ou se passeia com algum moço, ou se se veste com roupa que amostra as formas do seu corpo -as rifenhas tem corpos coma torres, altas e bem feitas, rotundas, muito fermosas- ou vai sem pano, ou algo assim, os homens, que ficam sentados no café, metem cisanha nos irmãos, ou no pai, ou gaban-se de conquistas que não existem mais que no seu magim…
Depois, na casa, há “quilombo” e a rapariga, tem que se tapar, levar a chilaba bem frouxa, não passeiar com homens, pôr o pano… Ja não falemos de sair de nuite celebrar o lume novo…
Em troques, as de fóra, podemos fazer de tudo: Outra cultura, dim.
Lembro aqueles filmes de Alfredo Landa e das “suecas”, de rancia e casposa represão. Ou de meu pai, quando dicia:
“As mulheres de agora sou escandalosas…Ensinão tudo, andão a beber e a fumarem coma homens, dão bicos aos moços pola rua…Facede o que queirás, mas que não ouça falar de vós quando estea na taberna, bebendo um vinho cos amigos…”
Ou de aqueles moços pantasmões -quase tudos, decerto- que se gabavão das suas conquistas …Eles tinham moitas moças, o mãu e que elas não sabiam…
Quanto tivemos que mudar as mulheres a sociedade galega, rural e familiar como a rifenha…! E tudo porque agora não precisamos casar para sobreviver…
No fundo, sempre há umha razão económica.

Olhares.

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Há olhares e olhares. É o que mais me chama a atenção deste mundial de futebol que ando a seguir pola tv suiça, graças aum trebelho que me mercou o Suso no baçar e que conecta com essa canle-pirateada, por suposto.Os meus vizinhos sou artistas do tema-.

Pois sim. O que mais me fascina do mundial é ver a diferença entre as equipas das diferentes partes deste globaliçado mundo nosso…Ver as diferenças entre os ghaneses, mexicanos, japoneses ou ucrainos…

E, aparte da constitução física e da color da pele, que é muito notória- Os africanos sõu homens-torre muito veloces e fortes, os mexicanos mais pequenos , os japoneses e coreanos, pequeninhos e de “desenho” e os europeus, nada que ver, por ja ter visto tudo até o empacho todo o ano de ligas, calcios , premiers e demais…

Em fim. Que disfruto muito do mundial…Polo de agora. Porque não sei por que, parece-me que vão ficar sós os europeus aburridos-ainda bem que quedem argentinos e brasileiros para disfrutar-

O nosso mundo é assim. Muito vário, mas sempre vemos aos mesmos.Aos outros, não queremos ver ainda que passem ao carom… Aburremento e monotonia que da a seguridade de que nada vão mudar, é o que nos acae…

Mas, vendo os olhos e, sobre tudo o olhar de cada quem, há diferenças bem notórias.

Os olhos dos africanos sou escuros, grandes, e intensos…Quando sae um primeiro plano, o seu olhar fai-se sentir, como a primeira vez que vim aquí, ao Magreb. Sou olhos que transmitem algo muito forte, que, quando te olhão, sintes o mundo e a vida perto de ti. O olhar dos meninhos, sobre tudo. Dos meninhos do campo, que ficam na beira da estrada a dizer adeus coa mão, ou que vão no seu burro coas garrafas cheias de água…

Das meninhas que guardão as ovelhas polos arrós, co seu paninho à cabeça. Ou que vem da escola, fbalando seus segredos femininos…

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O olhar de Raul, ou de Beckam, ou de Owen, não di nada, para mim…

O Suso di que esse mesmo olhar tem-no os marinheiros de Camarinhas, quando vão sós, caminho do peirão, ou tão sentados a pôr a encarnada nos ançois do palangre, ou ficam assim, calados, ao pé do malecom olhando o mar…

Eu digo que é o mesmo olhar daquel retrato da escola que ele tem co mapa detrás e a bóla da terra à mão esquerda…Aquele no que semelha que não tem mais que olhos, abertos e cheios de não sei muito bem o que…

Será por esso que gosto tanto dos olhares grandes, abertos coma o mundo,cheios de perguntas sem resposta, de arelas de saver, de conhecer, de saver se há outros mundos que se imaginão, mas que não se vem.

Porque eu, de meninha, também abria muito os olhos, e não me chegavão para olhar o que queria conhecer e não via, e corria detras dos carros que passavão, cada meio dia, pola estrada sem asfalto que ia de Vimianço a Camarinhas, coas minhas amigas. E olhavamos o rio desde a ponte, de caminho à escola da Toxa…Cada dia passávamos e cada dia olhávamos ao fundo, esperando ver algumha truita,ou algumha cousa fascinante entre os nabos caínhos que se moviam, levados pola água. E olhávamos entre as silvas, para ver se atopávamos algum ninho de carriço. E olhávamos a chûvia, e as pingueiras que caião das telhas do cabanote, umha detrás da outra, toda a tarde…Sem nos aborrecer.

Hoje, ja não somos quem de olhar, assim, sem mais…Sempre temos que estar “fazendo algo”. tudo o mais que somos quem de olhar sem cansar, é a televisão…Por esso cada vez os olhos se nos pôm mais pequenos. Mais mortos. Com menos arelas de ver o que não vimos. Ja o temos visto quase tudo…

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Com que pouco fumos felices…!

Iberia.com

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Ja lhe vale aos de Iberia…Como se passão…! Este ano queremos ir a Vimianço com duas amigas rifenhas-mãe e filha- Tinhamos pensado fazer coma cada ano, ir até Melilia no carro e logo colher um avião a Santiago, via Madrid ou Málaga.

O dia quince deste mes, quando resolverão o das visas das nossas amigas no Consulado de Nador, entro na página de Iberia.com para mirar unmhas passagens para os quatro-tres adultos e umha nena de once anos-.

O prezo das passagens-só de ida- !MIL EUROS…! Incrível… E outros mil para volver, como é de supôr…

Trata-se de escolher. Ou deixar aquí às amigas, ou ir no carro cruçando todo o Rif, o estreito até Algeciras, durmir lá, logo ir a Sevilla, a Huelva e tirar por Portugal…Dous dias de trompoloutrõu…E não poder chegar ao Asalto ao Castelo. Chegar, sim. Mas depois de dous dias de batedora, quem vai ter gana de asaltar nada…
Tudo é porque em Melilia só opera Iberia, a través da sua companhia Air Nostrum.Os residentes tem um desconto do 30% nas suas passagens e os demais, a pagar o que queirão pedir…Os rifenhos que vem a Espanha em Iberia sõu os ricos, claro.

Logo, depois, tem ofertas a 10 euros a París, ou a Londres…Polo preço de ir e vir a Melilia, podes chegar a Punta Cana e ainda che alcanza para o hotel…

Decerto que a lei da oferta-demanda é umha toleria…E eu queixo-me mas não dependo desse facto para manter a minha vida. È apenas umha incomodidade. Quantos casos há no mundo nos que a simpática lei capitalista é questão de vida ou morte…

Mas… que mais tem. Na propaganda saem as marabilhosas ofertas e planos de ajuda, e as ongs -que vem ser as ofertas da ajuda internacional- e tudos bem contentos…

Os arcos do Susinho

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Hoje chama-me o Susinho. Fica feliz e quere-me contar o parto da sua primeira bóveda de cruceria.
Falamos do dia em que diz que não queria estudar mais, de quando fomos, os dous, a Mestre Mateo, para entrar na escola, e começou a bater nas pedras e a dar-lhe à gúbia,mentras eu ia enchendo os andeis do piso de enciclopédias, monográficos e cds de arte…
De quando mudou a sua admiração por Jim Morrison pola de Michellangelo…Tão cheio de cabelos tão negros e tão crechos e de porros que remataram numha ansiedade de cavalo…
Falamos de tudo esto, e rimos.
Porque hoje fui o dia no que rematou os seus primeiros arcos.
Fui aló polo antigo reino de Valencia,num mosteiro do Císter fundado no século XIII, nos tempos de Jaume II “El Just” . Restauraram umha bóveda de arcos cruçados e ele fui, por primeira vez, o mestre canteiro responsável…
pouco a pouco iam retirando os andâmios olhando para acima, por se havia que escapar…
Mas as pedras ficaram no seu sitio, descarregando o seu peso cara os lados, como cómpre en tudo arco que se preze de o ser…
Depois de tantos anos vendendo coiro polas feiras-graças a esso, ao ir visitar, conheci gente bem encantadora, artista e garimosa- de fazer de camareiro ,de cantar coa sua guitarra polos pubs da Corunha, de fazer duas expossições de quadros e desenhos.

Depois de esculpir a sua primeira obra pública há sete anos, que ainda não cobrou do Concelho de Corcubiom- O busto de José Carrera que fica na entrada do Concelho-
Tal vez se tivesse cobrado não teria sido a única, mas há cousas que a um moço novo o desalentam e umha delas, é não cobrar polo seu travalho…E ainda por acima, ter que pagar o IVE da factura do seu peto…
Também tem umha outra escultura num lugar bem visitado: umha cabeça feita para um pub da Corunha-o Cachivache- que essa Miguel, o dono, sim que lha pagou…Porque Miguel é um bom rapaz de Vimianço, gente coma nós.Não é umha institução pública.

Hoje fico muito contenta. Feliz de não ter investido no forum esse dos selos que saiu furado ,nem no banco, nem na caixa, nem em nemhum outro… As minhas inversões medram e dão froito. Até me espertam para me contar a magia dos arcos que se sostem, no alto,polo bom ofício de canteiro dum rapás que naceu um dia de novembro do 77. Dia de frio em Vimianço. Que pari eu sozinha porque ao doutor que havia no povo não o podiamos chamar pola nuite, porque bebia um bocadinho e não era de fiar mentras não lhe passavam os efeitos…

Meu avó,acompanhava-me a passeiar polo corredor. Ele estava no seu último tramo de vida e gostava de recibir a um meninho para o seu lugar…O meninho leva o seu nome…E tem um dos seus ofícios. Ele fui canteiro e ferreiro depois…Meu avô não fazia arcos de cruceria. Ele e mais seu pai e seu irmão tinham umha quadrilha de canteiros. Construiram algumha das casas que ainda hoje quedam em pé em Vimianço-A ver por quanto tempo…- Meu avó ensinou-me umha rima na lingua dos canteiros:

O endusco vai lhestindo

pró esabo da ureta.

Os argas quedam galrando

que muriam se lhe peta…

Hoje penso como a vida é umha cadeia… Por esso as ideias me vem assim, encadeadas,sem muita orde…Hoje é um dia especial. O” dia dos arcos cruçados”.O dia no que se cruçaram o passado e o presente. Serei eu a pedra clave onde se encontram as duas linhas, a do meu avô e a do meu filho? Nunca pensara no assunto, mas é. Imos recolhendo e transmitindo. Sendo sementados e sementando à nossa vez. Assim se tece o tecido da vida. Coa urdime dos anceios, dos sonhos e das acções dos nossos devanceiros, que se materialiçam nas nossas opções fronte à vida. Assim tem que ser para a gente de bem.Saber quem somos e de onde vimos. Para saber a onde queremos ir. E logo, deixar-nos levar polo rio da vida. A onde queira que nos leve, sempre seremos galegos e galegas, criativos, capaces de pensar,de empatiçar, de travalhar e de fazer bóvedas de cruceria para ir desde o passado até o futuro…

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Nunca tal se viu

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Nunca tal se viu aquí, no Rif. A meados de junho e o sol ainda sem sair como é debido. Debe de ser porque sabe que ando algo cansa e não quer me abafar mais.Brétema, nuvens, vento levante…Há dias vim na tv que na Galiza ardiam coa calor. E eu durmindo ainda co meu edredom de plumas…O mundo ao revês.

O Suso, entusiasta, vai cada dia à praia, a ver se se pode banhar. Cada dia,volve sem dar o banho. O mar anda revolto, di. Os últimos quatro anos, banhavamos desde março ou avril até outubro.

Eu agradezo o mantão de nuvens que nos protege da calor, mas boto em falta aquela luz branca, coma farinha, espalhada polo azul.

Agora escuito “Tuyo siempre” outravolta. Gosto de Calamaro como gostava de Bob Dylan quando era adolescente…Calamaro mesmo me tem um ar a Dylan…E a sua tristeça portenha é-me mais próxima. Porque conheço melhor a tristeça de B.A. que a da autoestrada 52…

Em B.A. tenho os meus únicos curmans. De B. A. é o meu único genro. em B.A. morreram meus dous tios por parte de mãe, sem nunca mais volver…Em B. A. conservo o único tio por parte de pai que tenho.Em B. A. há tanto fracaso,tantos sonhos esvaidos,tanta ausência, tanta saudade, tanta tristeça, tanta nostalgia do além-mar…E quase tuda de galegos…Na auto-estrada 52 não é o mesmo…
Definitivamente prefiro a Calamaro:

“Si alguna vez no me vuelven a ver

porque a mi, como a todo, se me olvida.

Algo va a quedar adentro tuyo siempre

Algo que yo te dejé alguna vez…”