Monthly Archives: Setembro 2006

O sangue espesso. Para Adela. 30

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O sangue espesso é um rio que vem desde longe.

Desde escuros mananciais que aborbolham nas cadeias de ácidos proteicos, um rio quente de metal fundido.

Através de geraçãos,descargando sua voltagem nos mares translúcidos de serotonina.

Assim vem, fluindo,dentro de nós, por entre as ringleiras de abeneiros e espadanas em flor.

No fundo, as pedras. Pedras escuras recubertas de limo verde e escorredio.

Debaixo do epelho brunido da superfície, um peixe que escapa,fugidio, coma as lembranças esquecidas.

Ele é o passado, o presente, e o futuro.

Ele é a corrente que nos arrastra ou que nos leva, arrolando-nos dócemente.

Ele é minha vida, mina paixão, minha condena…

Ele mais eu somos um.

Desde sempre. Para sempre.

O sangue espesso, mesto, fluido.

Coma um rio de ferro.

Ou de mercúrio.


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Outravolta no Rif

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De novo no Rif e no trafego da pequena cidade: Música de vodas ao anoitecer, carros que pasam, vendedores que pregoam suas mercadorias, meninhos a jogar nas ruas…

Este é o meu último ano, e ja começo a sentir a saudade da partida. Por esso gosto de ficar assim, coas janelas abertas, para que por elas vaia entrando a vida da cidade.


Ainda me queda umha viagem ao Sara, coa minha irmã, a única que ainda não veu conhecer o pais onde moro. Também a Marrakech, a Azrou e a Volubilis…Será o epílogo da minha estadia em Marrocos. Umha viagem de dez dias polas profundidades deste pais tão incrível: Polos bosques de cedros, os oasis de palmeiras, as dunas de areias e a praça de Yemaa El Fnaa, onde espero atopar, para tomar um té que temos adiado há tempo, ao senhor Goytisolo.

Ele ficará cá, no pais que ama,a minha estadia era de ida por volta e rematará em Junho, inchallah.


Mas não me irei de tudo. Algo ficará comigo para sempre: A paz e a sabedoria desta gente, a beleça deste pais alucinante, a infáncia revivida em tantas cousas que me lembram os meus primeirpos anos em Vimianço. O esplendor do seu mar, dos campos rifenhos ateigados de amendoeiras em flor, e de casinhas cúbicas arrodeadas de figueiras chumbas…


A filosofia do inchallah, entendendo por allah, algo que flue arredor de nós e nos traspasa coa sua vontade. Em quem depositamos o tempo, o espaço e o devir, quedando em paz e deixando que a sua sabedoria nos proteja e encaminhe nossos pasos. Ao fim, allah é o rio da vida, e nós só temos que viver deixando-nos levar pola sua corrente…


Muitas cousas aprendi aquí. Ainda que, na teoria, vinha para ensinar.

Só espero ter-lhe amosado aos que se cruçaram comigo em este ponto, algo de proveito, ainda que não acerto a saber o que. Recibí tanto, que me da vergonha ter dado tão pouco. Mas umha é apenas umha mulher normal, sem moito que ofrecer aparte de sim mesma. E de certo que me entreguei por completo a esta terra desde a primeira vez que a conheci. Mas, quando umha se entrega, o coração não se baldeira, que se enche daquelo mesmo que vas dando. Por esso eu agora tenho o meu cheio deo amor pola terra, pola gente nova que demanda mais travalho e mais liverdade,pola gente humilde e silenciosa coa que me cruço pola rua, polos meninhos de olhos negros , polos camareiros do café, polos vendedores do baçar, polas velhinhas de cara tatuada, polas raparigas que passeiam seus corpos de torre e suas caras de anjo pola rua…

Um tesouro que nemhum me poderá tirar…