Monthly Archives: Dezembro 2006

Feliz aninovo. Aïd Mubarak

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Hoje coincidem duas festas importantes para os meus vizinhos. Os de aquí, e os de alá.

O ano velho, com suas uvas, o cava, os vinhos por Vimianço antes de cear…

E a outra festa dos meus vizinhos rifenhos, que hoje celebram seu Aïd el Kbir, ou Pascua Grande, a festa mais importante do mundo muçulmano.

Hoje, cada família muçulmana sacrifica um anho.

Depois da oraçom da manhà, as terraças enchem-se de anhos, as famílias e os vizinhos visitam-se, comem juntos, bebem chà com pastelinhos de améndoas e pola tarde, saem ao passeio com sua roupa estreada de novo.

Os paralelismos entre as duas festas som muito significativos:

Nesta banda, hà quem vai cear angulas a seiscentos euros o quilo, cava de trinta euros a garrafa, camaroes, percebes e todo o demais.

Também os hà que imos ter umha ceia mais normalinha.

Antes de vir, falando com os meninhos da áula, havia quem ia sacrificar tres, quatro, e até oito anhos, um por cada parelha. Outros, iam se juntar com os avós e mercavam um anho para a família.

Em ambas duas bandas hà diferença entre a fartura e o derroche, entre a festa e o consumo desaforado. Normalmente vai asociado à capacidade económica de cada quem, salvo raras e honrosas excepçoes. Também hà quem é prudente e quem se empenha ainda que quede aforcado polas débedas.

Aforcado ficou Sadam Hussein, precisamente o dia da meirande festa muçulmana. E eu pergunto-me se pagou a pena o triste e hipócrita espectáculo. Que se queria conseguir com matar a um homem ao estilo do mais estúpido linchamento?

Nom entro a julgar a Sadam, porque nom tenho dados nem inmformaçom fiavel para o fazer. Mas nom me senti nada bem quando vi por tv ao homem com a corda ao pescoço e logo no chao, morto, envolveito na saba.

Hoje remata um ano e começa outro. Mas só som números num almanaque. Realmente, a humanidade semelha nom rematar nem começar nunca umha nova etapa: A de sermos de verdade humanos. Mentras tanto, tanto tem que corram os dias no calendário. A falta de empatia e humanidade seguem a se repetir até o infinito na nossa pequena e global aldeia. Seguimos a rifar, a luitar, a matar-nos uns aos outros coma estúpidos e anti-naturais depredadores.

A pesar de todo, também hà gente evoluida que prefire a vida antes do que a morte.

A todos eles, desejo-lhes um justo, pacífico e feliz tempo futuro. A ver se algúm dia somos mais e podemos inaugurar um tempo novo, sem explotaçom, medo dos demais, e linchamentos inútiles.

Apertas.

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Apurando os dias

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Certamente os dias contados marcham voando. O Suso e mais eu, nom paramos desde que chegamos.
Onte à nuite fomos toda a família a Riaçor.
Que bem o passamos!
Hoje, nós os dous,, fomos a Coristanco mercar árvores no viveiro, para plantar na leirinha que fica por tras da casa que fui de minha avoa Dolores, deica a beira do rio. O Nés jà deixou feitas as covas o outro dia e manhà imos plantar.
Trouxemos um freixo, umha bidueira, umha faia, umha nogueirra, un castinheiro e um acivro, com as suas bolinhas coloradas.
Vinham deitados desde a maleta do carro e batiam-me na cabeça. Eu vinha-os acarinhando e falando-lhes, para que saibam que som muito importantes para mim e que espero que a nossa vida juntos dure e seja feliz .
Hoje dei o primeiro passo para cumprir um sonho que vem de velho. Viver na casinha da minha avoa e ver medrar e mudar com as estaçoes às minhas árvores da beira do rio.
Na casa da minha mae jà também tenho algumha árvore plantada, mas nom podemos plantar mais, porque a curtinha faz falta para as patacas, o repolo, as nabiças e demais.
De certo que sou muito afortunada.
“Tenho umha casinha branca,
em Vimianço, entre os loureiros.
Tenho amores, tenho àrvores,
estou vivindo no céu</b

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Desde Vimianço

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Outra volta em Vimianço, passando frio a esgalha. Mas com o coraçom muito cheio de quentura por minha velha, meus moços, minha irmà…

Passado manhá a Riaçor. Toda a família a ver a seleçáo galega. Agasalho de Natal para todos.

Escrevo desde o aparelho da minha irmà, que nào tem opçao em galego-português, coma meu imac.

Desculpas polos tils e demais.

Umha aperta a todos e todas e muito bom ano 2007.

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A conta atrás

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Espero com impaciéncia que chegue o dia 21, para rematar o trabalho e ir embora para Melilia, para colher, o dia 22, um dos tres aviões que, a través de quatro aeroportos, me levarão a Alvedro. Depois , ainda o automóvel até Vimianço.

O shock traumático de Melilia, vai ser forte. O Natal do ano passado, era tal o despregue de guirnaldas e lucerio, que Suso e mais eu, ficamos em estado de shock até chegar ao aeroporto. Polo caminho espertamos ao ir seguindo a linha do arame de triple capa, com torretas de vigia provistas de cámaras e remate de cutelas afiadas em espiral.

Este ano, ainda mais. Porque coincidem as festas das duas comunidades maioritarias: O Natal católico, e o Aid muçulmano. E sabido é que hà que se diferenciar e competir em adornos. Sabendo que sempre ganhão em glamour e bon gosto, os da banda de Lestrove, claro está.
Assim que, iluminação nos dous bairros. Pais Natal subindo polos balcões, árvores saturadas de lampadinhas intermitentes, escaparates cheios de neve de polispam, bólas de ouro e cintas de colores vários.

É de supôr que, nos aeroportos, a música ambiental seja de meninhos cantando panjolinhas com ajoujeres e garrafas de anís del Mono.

Que bem se ta às vezes longe do rebúmbio! Sem contacto com o natal, nem as cintas de colores, nem as tiras de luzes, nem tanta trangalhada…!

Em fim. Todo seja por abraçar à minha velha, aos meus moços, e parolar um cacho com os meus vizinhos.

Bom Natal a todos e os melhores desejos para o ano que vem.

Manhã de sol e de souk

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A manhã de hoje é de sol, aquí no Rif. Desde a minha janela posso ver as fachadas dos edifícios-quatro alturas é o máximo permitido- que ficão orientadas cara o Leste, iluminadas polo sol que sobe, e as açoteias inçadas de parabólicas e demais antenas às que os rifenhos e, em geral, os marroquinos, são tão afeiçoados.

De vez em quando, umha rula passa, solitária, diante do quadrado da janela.

Em baixo, na rua, escutão-se ruidos de carros, camiões e burros que vão para o Souk dos domingos, fóra da cidade.

Também chegão fragmentos de conversas que, ainda que em idioma diferente, tem o mesmo sotaque das dos camarinhães, quando se encontrão e se saudão, pola rua.

Muitas veces, o Suso e mais eu, jogamos a identificar vozes. Como se semelha o sotaque do árabe marroquino ao do galego da Costa da Morte… Mesmo as gheadas guturais, a linha sonora das frases, o tom bravo, que sempre semelha cabreado sem o estar…

Quando soa a rádio, pola manhã, para espertar, sempre escuitamos a voz de algûm vizinho falando árabe.

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Memória histórica

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Minha avoa Dolores-a comunista-, viúva desde os vintaseis anos do seu homen, Florentino, mãe de dous meninhos de tres e quatro anos quando enviuvou, morava numha casinha à beira da estrada que une Vimianço com Camarinhas.

Xusto diante da sua casa, pusserom o jugo e as frechas encarnadas de madeira e de grandes dimensões, com o nome do povo, VIMIANZO, como adoitavão fazer nos anos do “glorioso movimiento”

Não sei se fui a posta, ou por açar, mas o certo é que era o primeiro que via cada dia, ao abrir a janela.

Quando ia à sua casa, e ficava-mos soas, contava-me muitas cousas de quando vivia em Cée, com meu avó, de como fui parar a Cée, com treze anos, para ter conta das crianças de umha das famílias ricas da vila. Era filha de solteira sem mais que o dia e a nuite, e as suas mãos para panilhar.

De como meu avó e mais ela se namorarão, tiverão os filhos, de como ele participava activamente na vida sindical da fábrica de Carburos-A Fábrica, para os de Cée-, também na vida política ,estudava polas nuites nas áulas de adultos, tocava o clarinete na banda de música e ainda tirava tempo para sairem com os meninhos, ir ao teatro, aos concertos, e ao cinema que já daquela funcionava em Cée, umha vila cheia de vida cultural e política nos anos da República.

Também me contava outras cousas tristes. Muito tristes e vergonhentas.

Mas, hoje, quero rescatar aquela versão da Internacional que adoitava cantar-me quando ficavamos sozinhas, no seu quarto da tenda, mentras os panilhos repinicavão no cuiro da almofada, e as rendas de rosas, se ião completanto em cada pique.


LA INTERNACIONAL

Arriba, parias de la Tierra.
En pie, famélica legión.
Atruena la razón en marcha,
es el fin de la opresión.

Del pasado hay que hacer añicos,
legión esclava en pie a vencer,
el mundo va a cambiar de base,
los nada de hoy todo han de ser.

Agrupémonos todos,
en la lucha final.
El género humano
es la internacional.
Ni en dioses, reyes ni tribunos,
está el supremo salvador.
Nosotros mismos realicemos
el esfuerzo redentor.

Para hacer que el tirano caiga
y el mundo siervo liberar,
soplemos la potente fragua
que el hombre libre ha de forjar.

Agrupémonos todos,
en la lucha final.
El género humano
es la internacional.

La ley nos burla y el Estado
oprime y sangra al productor.
Nos da derechos irrisorios,
no hay deberes del señor.

Basta ya de tutela odiosa,
que la igualdad ley ha de ser,
no más deberes sin derechos,
ningún derecho sin deber.

Agrupémonos todos,
en la lucha final.
El género humano
es la internacional.

la-internacional-socialista.mp3.

È umha versão que nunca volvi a ouvir. Sempre era outra letra a que escutava.

Mas, é de comprender. Estas cousas agora jà não passão. Já somos modernos demais para ser párias. Agora a famélica legião são outros. Nós ja ficamos cheios.

Agora, desde que volvi do Rif, vivo na cás de minha avoa Dolores.
Ainda resoa a Internacional polas salas, quando fico sozinha,na casa…

Voy a perder la cabeza por tu amor

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Outra volta escutando a Calamaro. Mália a publicidade do combustível e demais.

É curioso como hà momentos na vida nos que umha perde a cabeça por outra pessoa.

E como, de tanto pensar no outro, umha mesmo perde o centro do seu próprio círculo e põe o centro na outra pessoa.

Assim, des-centrada, passa cada instante do dia e da nuite, cada alento, cada latejo, fóra de si, tratando de habitar o corpo , a mente e a alma dumha pessoa diferente, perseguindo a Ítaca dum coração alheio.

É assim que a vida se volve um sem-viver, um percorrer as ruas na procura dum encontro, umha vissão, umha presença…

Logo, quando umha volve à casa, as mãos já não lhe pertencem. São pombas que quer voar ao seu cabelo. Os olhos não querem mirar o mundo próprio, prendidos no engado do outro mundo desconhecido, estranho, mas tão conhescido e tão próximo por o ter imaginado e amado até o infinito.

Às vezes cruçamos a ponte, tentando recuperar nosso coração perdido no contacto , nas carícias, no incéndio que nos queima até a dissolução e o vazio .

Outras, não ousamos cruçar as pontes.

E então seguimos a sofrer, perdidos no temporal que nos leva e nos traz, na chuva que nos asulaga, tremendo de frio e de tristeça, sós, e espidos, no meio das ruas onde tudo é hostil e alheio. A gente passa,á nossa beira, sem nos ver. Sem se decatar da infinita tristeça que nos asulaga. Da chuva azeda que nos corroe e nos dissolve, queimando-nos a pele em carne viva.

Mas, quando tudo passa, e de vagarinho, imos recuperando esse ponto de luz, nosso centro, então comprendemos. Percevemos que Ítaca era o caminho. Que o que em realidade procurava-mos, era nosso proprio coração , perdido entre a monotonia uniforme e gris de cada dia. Que toda essa luz que procurava-mos no outro, era a mesma que já ficava desde sempre, em nós. Que o outro e nós, somos o mesmo. Que não há outro, nem ilhas a onde há que chegar. Que a única ilha a onde temos que arribar fica dentro de nós mesmos. Que, acadada a nossa Ítaca, temos acadado todo o que o mundo tem. Que o amor não é dumha pessoa, nem dum contacto, nem dum sonho. O amor é nosso. Somos nós que amamos, que vivimos, que somos e existimos, coma mundos que podem contrair-se ou expandir-se coma galaxias, coma estrelas ou buratos negros.

Quando percevemos estas cousas, a vida jà nunca volve a ser a mesma.