Monthly Archives: Outubro 2007

Parches

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Lembro os anos em que era umha meninha e mirava a meu avó amanhar sua bicicleta.

Tirava do caixão das ferramentas a caixinha dos parches e o tubo da disolução e remendava os neumáticos todos cheios de feridas dos caminhos de calhaus e a estrada de Camarinhas, cheia de seixos de punta.

Hoje, vendo o que passa no mundo, não posso deixar de pensar no meu avó, e na sua velha bicicleta. Nos paises pobres do planeta, da-se a meirande densidade de velhas bicicletas. Nós, hà algúns anos, também formávamos parte desse exército de ciclistas sem sponsor, mas agora a vida mudou. Imos dum lado para outro em carros movidos por combustíveis fóssiles e jà não usamos as pernas mais que no gimnásio ou a discoteca. Mas, porém, ainda seguimos pondo parches nas velhas bicicletas. Tratando de substituir a justiça por caridade, parcheando e logo tapando com a goma, para que não se vejam os remendos.

ONGs, crianças levadas fóra de seus paises e culturas porque são más doados de conseguir là que em Espanha, donativos para espalhar o cristianismo…De tudo há, em quanto a parches se refire…

E, mentras tanto, nós a consumir: A encher o depósito do carro de gasofa, dando voltas sem sentido, a mercar a esgalha produtos fabricados com o sangue dos meninhos que ficam là,na sua terra, sem esperança de futuro, a encher os carros de produtos sem saber nada da sua procedéncia, porque não nos interesa.

Esquecemos as nossas velhas bicis parcheadas e tentamos ser caritativos.

O dia que no mundo haja justiça, cada meninho criara-se com sua mãe, em seu pais. Viajará quando lhe pete e seja um homem.

E não haverá mais caridade que a empatía. E tal vez as nossas casas, tenham poucas cousas, mas valiosas, porque quem as fixo cobrou um salário digno.

E tal vez nós não tenhamos que ir cada semana com o carrinho cheio, para sentir-nos menos pobres. A pobreça e as caréncias não sempre vem de fóra…

E o progreso, tampouco tem por qué ser algo externo…

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De liverdades, democrácias, críticas, auto-críticas, poesía e demais.

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Como jà saberedes, acabo de aterrar na Galiza após de algúns anos fóra. Desconheço, quase totalmente, qual é o panorama em quanto a poetas e demais literatos que por cà se movem.

Por eso não posso falar da senhorita Yolanda Castaño, que a maioría da gente conhesce por saír na Galega.

O que não posso compreender é que umha pessoa que se diz poeta se anoje por umha cantiga de escárnio e mal-dizer gráfica referida à sua atitude fronte a um facto. Neste caso, seica referido a Isaac díaz Pardo que, por idade, trajectória vital e sinceridade, merece, quando menos, a minha admiração e respeito.

A mesma admiração e o mesmo respeito que me merecem os Aduaneiros sem Fronteiras, verdadeiros trobadores gráficos de quanto acontece no pais com o que esto conleva de espertar conciéncias e provocar reacções a través do humor.

Certamente, desconheço os poemas de Yolanda, porque ela não era ninguém ainda quando eu fui embora. Mas, visto o visto, penso que não vou ter gana de os ler numha boa tempada.

Seguramente outras pessoas mais informadas jà comentariam estas cousas em centos de blogues.

Eu só queria dar minha opinião.

Foi um dia Lopo jograr
a casa duü infançon cantar,
e mandou-lhe ele por don dar
três couces na garganta,
e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
segundo como el canta

Escasso foi o infançon
en seus couces partir’ enton,
ca non deu a Lopo enton
mais de três na garganta,
e mais merece o jograron,
segundo como el canta.

Martin Soarez

Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv’en [o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

Joan Garcia de Guilhade

Umha surpresa matinal

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Comunicado

Sendo requiridos por Dom Pablo Carvajal de la Torre, representante legal de Dona Yolanda Castaño Pereira, a retirar do nosso site o desenho gráfico “Tu Quoque Iolanda?” e os comentários a ele adjuntos, sob ameaça de demanda judicial por delitos de injúrias com publicidade, e nom querendo ferir a delicada sensibilidade da nossa insigne poetisa, Aduaneiros sem Fronteiras, questionando-nos até que ponto tem sentido continuar a fazer humor gráfico neste país e a desenvolver umha autocrítica da razom galega, vimos de decidir fechar o nosso site por enquanto o nosso legítimo direito à liberdade de expressom nom se veja a salvo de coacçons judiciárias fora de lugar.

alfandega@aduaneirossemfronteiras.org

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Pensar e sentir

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Qué doado é, para mim, pensar…

Ideias, palàvras, juiços…

Mas, quando todas esas cousas se vão empapando com a tinta púrpura que abrolha no peito e vai escorregando desde os pés até os miolos, o corpo, por dentro, encolhe até fechar os pulmões e anoar o estómago e as vísceras num nó cego, impossível de desanoar.

O motivo pode ser calquera: A morrinha, a saudade, a tristeça do que não fui, a inquedança do que é, o temor do que pode ser… O passado fermoso, o presente anodino, o futuro incerto… O amor de mãe, ou o amor de filha, a soidade, o rebúmbio, o filme que dão na tv, umha canção…

A dor de existir.

Dor existencial que oprime como chumbo, que doe como umha faca penetrando na carne.

Coma sete punhais espetados num coração ardente.

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Aïd El Fitr

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Aïd El Fitr é a festa do fim do mes de Ramadam.

As rifenhas celebrarom hoje o fim do jejún com pastelinhos e a rapaza veu pola manhã com sua cadeia de ouro, onde penduravam todos os seus amuletos: Umha mão de Fátima de ouro cum olho azul no meio, umha reproducção do Alcorão de ouro, o nome de Allah, umha chapa com seu nome,um coração…As mulheres do Rif sempre recibem agasalhos de ouro, desde crianças. Vão guardando para quando hà um mal momento e se precisam cartos. É um depósito de capital que se luz e se disfruta. A dote da voda, faz-se em ouro e é o noivo quem paga o que a sua prometida elige na ourivesaria.

Trazia também umha pulseira de ouro calado, do estilo das que levam as bereberes, um anel de ouro…Todas as jóias de festa, mas faltava o cafetã de seda e bordados , as babuchas, tudo o que, em dias de festa, faz que as mulheres marroquinas semelhem princesas das mil me umha nuites.

É a primeira festa que passam lonje da casa, sozinhas,sem a família, nem os vizinhos, nem todo o ritual que acompanha as festas muçulmanas.

O mundo sempre fui um caminho cheio de gente que vai e vem.

Uns para cá. Outros para lá…Assim se fui tecendo a História e assim se tecem as histórias de cada quem..

Aïd Mubarak. Salam.

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A nuite vinte e seis

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Hoje é a nuite 26 do mes de Ramadam.

Segundo a tradição muçulmana, esta nuite as portas do paraiso ficam abertas e também as do inferno. É a nuite en que os anjos e os dianhos andão ceivos e nos visitam, na terra, e é também umha nuite de festa para os meninhos.

No Rif, na cidade na que eu vivia, esta nuite os meninhos e meninhas saiam à rua habilhados do melhorinho, com roupas de festa, jóias e alfaias, e eles com djilabas brancas e puchos de Fés, esses que são redondos, de color grana, e tem umha borlinha negra pendurada que se vai movendo ao caminhar. Também, essa nuite, pintam as mãos e os pés com henna, fazendo lindos dessenhos
Os fotógrafos colocavam suas cadeiras forradas de seda e abalórios na praça, coma se for tronos do rei e da rainha, tão kitch como só os marroquinos ou os marinheiros sabem fazer e os pais levam aos filhos para facerem o retrato que inmortaliçará esse dia.

Muitos meninhos vão à mesquita para pregar por vez primeira e caminham pola rua todos cheios de fachenda.

Tenho tanta saudade de Marrocos, que ainda penso que, se saio à rua, vou topar com as ruas ateigadas de gente, os amigos do bazar tomando chà na sua porta, a tenda de louça com o teito cheio de cipós, que o Suso dizia que era a selva de Tarzan, a terraça da Belle Vue, onde vou ir tomar um suco de laranjas doces de Berkane, mentras miro o mar e a lua, que se levanta.

Esses cafés de Marrocos, cheios de homens sempre e agora, nas nuites de Ramadam, mais.

Homens silenciosos, que jogam ou olham o mar sem se mover nem falar durante horas. Outros conversam, mas tão baixinho, que não se percebe nem o balbordo.

Os meninhos que vendem cigarros, que passam a miudo polas mesas, o vendedor das amendoas fritidas, os que seguem o futebol espanhol na tv, ou sintoniçam Al Jazeera.

Deus, como os estranho…!

Ainda fico là e penso que, quaisquer dia, abrirei os olhos, e volverei a Alhoceima, a caminhar as ruas costa arriba, subir os três andares, e entrar na minha casa, cheia de ruidos da rua, cantos do muecim da mesquita e recendo a hortelã do chà e a canela e amendoas dos pastelinhos de Ramadam

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A janela

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Tanto tempo sem sair faz que as minhas referências da realidade sejam duas janelas: Esta virtual, por onde me ponho a mirar aquelas cousas que me prestam, e a janela do meu quartinho, por onde vejo um quadro que é, hoje, o único mundo que tenho.

Até penso en lhe dizer a Suso que me merque umha luneta ou uns binóculos, coma aqueles de James Stewart no filme de Hitchcock, mas não para ver a nemhúm assassino humano, só para ver a parelha de garças que voam cada tarde sobre as árvores da beira do rio, ou o minhato que pousa em riba do poste de cemento da leira de minha irmã, cada tarde também.

Sempre tento olhar de mais perto e tirar-lhe umha foto, mas, quando me assomo à porta, bota a voar e escapule-se para outro poste mais distante. Quaisquer movemento que eu faça, por pequeno que for, ele sempre o detecta. Debem ser seus olhos, que não precisam de trebelhos para verem o que tem de ver.

Quando chega a nuite, vejo ao longe o letreiro de color fúchsia que pestaneja lá , em riba da Parrilhada Santos, coma se for a luz dum faro no meio dum mar escuro.

E mais nada. Esse é todo o universo material que tenho desde hà meses. No horizonte, sempre os montes. Vimianço é um val circular, redondo e fechado como um embigo.

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