Monthly Archives: Maio 2010

Noitinha

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aclearglitterTwistedly.gifpós a hora do solpôr, vai vindo a escuridade, de vagar, mentras no ar queda ainda essa claridade que encheu todo o espaço diurno.

A Galiza, pola sua situação geográfica, fica mais perto do círculo polar ártico que do ecuador, e essa circunstáncia posicional no globo planetário, faz que certas cousas sejam dumha determinada maneira.

No ecuador, não há crepúsculo. O sol desaparece polo horizonte, e já é noite fecha.  Em vez disso, nos polos, norte e sul, os dias duram seis messes e as noites outro tanto. Tampouco no ecuador há diferença entre as horas de luz do verão e do inverno. Os dias e as noites sempre são iguais: doce horas.

Quanto mais perto dos círculos polares, os dias de verão tem mais horas de luz do que as noites porém, no inverno, sucede o contrário.

Longe da minha intenção dar lições de geografia desde esta janela aberta a todos vós, mas é certo que a nossa vida tem muito a ver com a terra, seus climas, suas rotações e traslações polo espaço. Ao fim, que somos? Filhos da mãe terra que nos alimenta, do pai sol que nos abastece de energia e namorados da lua que gravita sobre nós e nos atrai ou nos aparta, como umha rainha caprichosa. Que gravita sobre os fluidos do planeta e de nós mesmos, que com sua luz polarizada, marca as colheitas e as favorece, ou estraga a carne salgada ou as patacas de comer.

Pois agora, no mês de maio, perto já do solstício de verão, após o solpôr, o crepúsculo vólve-se noitinha. Umha escuridade que se vai espalhando, de vagarinho, ralentizada, na que o silêncio se faz mais profundo e o campo arrecende a erva, a névodas, a hortelã. Aló, na beira do rio, os pássaros seguem com seu trafego e, por acima da cabeça, passam os morcegos, voando umha e outra vez, num ir e vir silandeiro e apenas vissível.

Polo leste, vai saíndo a lúa cheia, a deusa que caminha majestuosa, espalhando sua luz  sobre o meu vale circular,  que se enche dum pó de prata que resplandece na erva, nas àrvores do rio, na aba do monte, como um fluido etéreo que muda completamente a aparência das cousas e tamém o nosso ánimo, que se volve mais instintivo, esquece-se da rutina do trabalho diário e percebe as sensações com mais intensidade: A noitinha é hora propícia para estar fóra, para a conversa, para o descanso e tamém para o amor.

Há tempo, esta hora mágica era a do lezer, das reuniões dos vizinhos para falarem do dia, dos jogos dos rapazes, dos moços que iam ver às moças para falarem com elas na porta, e dos passeios à fonte, onde alguns se perdiam  entre os carvalhos, ou os abeneiros, pra lhe render culto à deusa que fazia prender o lume nos corações e nas virilhas.

Umha cantiga popular da minha terra:

Ainda me acordo, neninha,

de aquela noite de verão.

Ti, olhavas as estrelas.

Eu, as ervinhas do chão.

Aproveitade as noitinhas, que não duram todo o ano.


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Solpôr

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d5upesde a minha janela, vi passar o dia de hoje redondo, cheio de luz, com o calor do sol quase perpendicular do solstício, derramando a sua dourada energía sobre os abeneiros da beira do rio, os salgueiros e os campos de erva e de milho recem nado, em fiadas verdes sobre o negro da terra. Olhei o pessegueiro, ateigado de pequeninhas améndoas de veludo verde onde há um mês estavam as rosadas flores.
O meu vale é mui formoso. Porque é redondo e amplo. Um orbe cheio de luz dourada e verde.
Há um pedazinho, baixei até a horta, pra regar as alfaces, os cabazinhos, pementos,chícharos e demais legumes que plantei há pouco tempo. Disfruto enormemente deste tempo de regar, arrincar ervas pra deixar limpa a terra arredor das plantinhas, e ver como, día a día, se vão percebendo mudanças em cada pequeno terreio no que fum parcelando meus cultivos, em cada eitinho onde assomam, como crianças inocentes e tenras.
Hoje, passou-me algo especial em tanto estava lá, na horta. Houvo um momento no que a luz se fixo de ouro puro, a brisa encalmou e o siléncio só era interrompido polos latidos dos cães, ao longe, e o rechouchiar dos pássaros, na beira do rio.

Todo ficou parado, estantío. O tempo deixou de correr e o espaço encheu-se de luz e sombras alargadas estendidas sobre a erva.
Esse intre especial, que precede ao pôr do sol, que se percebe no campo, ou na beira do mar. Essa luz e esse silêncio mágico são umha das vivências mais preciosas para mim. É como traspassar a porta da realidade aparente e entrar no plano da verdade onde o interior e o exterior estão em total e perfecta comunhão. Quando vivía no Rif, essa era a hora do Al Magreb, a última pregária do día antes de vir a noite. Desde os minrahbs de todas as mesquitas da cidade, os almuecins chamabam ao rezo com sua cadéncia de alalá: Allauh Akbar!!!! Desde a minha açoteia, escutava ecoar os cantos e não tinha em conta o que diziam. Só a cadéncia, o canto, o siléncio no que boiavam as pregárias.

Há portas que se podem abrir e traspassar de muitos modos. E todos os caminhos, se vão ao coração, sempre chegam ao  destino.

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Tempo e eternidade

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LMQ.gifuando eu era umha meninha, ainda o estado espanhol vivía baixo a ditadura de Franco e a ditadura franquista foi sempre fortemente apoiada pola igreja católica e o catolicismo,uns dos maiores símbolos da ditadura.

Até tal ponto chegava o servilismo da igreja católica, que quando o ditador Franco participava num ato litúrgico, os oficiantes, o levavam baixo do pálio que está reservado ao Santíssimo Sacramento quando sai em procissão dentro da sua custódia dourada.

Se conto estas cousas, é para que compreendades que a minha infáncia foi totalmente colonizada polo catolicismo revelhido e lúgubre de aqueles anos e que o “catecismo” ou livro da doutrina da igreja era de obrigada aprendizagem em todas as escolas com as mesmas palávras com as que fora redatado polas autoridades da cúria eclesial, aínda que nós, meninhos galegos do rural, não percebiamos nada de todo aquel remexido de ideias tão abstratas e, ainda para mais, em espanhol, idioma que não era o nosso nem podiamos falar nem perceber na sua maior parte.

Bem. Pois entre toda aquela doutrina ininteligível, havia umha ideia que sempre me despertou curiosidade: Deus era eterno. Não tinha princípio nem fim. Existiu sempre e existir-á por toda a eternidade.

Aquela afirmação era completamente incompressível para mim.

Com o passo do tempo, de vagar, fui passando a vida e, com ela, as vivências, sentimentos, ideias e todo o que se foi acumulando na minha mala vital.

Agora, estou por ver que aquela afirmação de que a eternidade existía, era certa. Mas não só para aquele senhor de barba branca e um olho dentro dum triángulo equilátero que nos vigiava em todo momento. Para todos e para todo a eternidade é um estado onde o tempo não existe. Porque, tanto o pasado como o futuro, são em realidade, projecções do pensamento sem verdadeira existéncia. O passado e o futuro, como memória ou imaginação, estam no presente. Todas as vivéncias de momentos passados estam em nós, como presente.  E o futuro não existe mais que como umha tentativa de se projectar que tem lugar agora, no presente tamém.

Só existe presente. Presente que leva em sí todas as vivéncias, avatares e sensações vividas ou sonhadas.

Esse é o sentido da palávra eternidade.

Cada um de nós, cada areia, cada folha, cada latejo do macro ou micro cosmos, tem em sí mesmo  o presente que veu de longe e vai para não se sabe onde em cada momento.

Só existe este momento. Este momento no que escrevo estas palávras fruto de toda a minha história pessoal e tamém da do universo, com suas estrelas, galaxias e fontes de energia que me tem trazido até aquí. Tudo está presente agora, em mim.

Desde a primeira explosão estelar que faz possível que eu exista, até as sucesivas explossões de sentimento frente ao mundo, aos olhos dum amado, ou o sorriso de tantos meninhos que tive a sorte de conhecer nos meus anos de mestra. Todas as terras que descobri, os amenceres que me encheram de emoções, os cantos das mesquitas do Magreb, os bairros de Barcelona onde vivi, os companheiras e companheiros com os que comparti a minha alegría, cansaço, afecto, as tristezas, as penas, os namoros, o medo. O amor.

Essa sensação de eternidade que não acredito que seja a mesma do “catecismo”, do senhor de barba branca que mora numha nubem a vigiar com seu olho as vidas alheias.

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A crise que vém de longe. Em rios de sangue e bágoas.

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“PRIMERO COGIERON A…

Primero cogieron a los comunistas,
y yo no dije nada porque yo no era un comunista.
Luego se llevaron a los judíos,
y no dije nada porque yo no era un judío.
Luego vinieron por los obreros,
y no dije nada porque no era ni obrero ni sindicalista.
Luego se metieron con los católicos,
y no dije nada porque yo era protestante.
Y cuando finalmente vinieron por mí
no quedaba nadie para protestar.”


Estes psico-sociópatas que movem o nosso mundo e que jogam com seres humanos ao pim pam pum, tem o poder que da o dinheiro. Mas,nós temos parte de culpa do que está a passar. Só nos centramos no nosso embigo e consumimos sem nos importar as condições de trabalho dos que fazem as parvadas que a miúdo compramos sem precisar de elas. Não temos conciéncia de clase. Só reagimos quando nos toca a nós. O comprar ou não comprar é o único poder do que imos dispôr de aquí em diante. Sejamos solidários no consumo. Já sei que é triste a cola do paro: Eu tenho três filhos que passam dos trinta e que não tem trabalho estável. Sei que para o ano, o subsídio que cobro não vai medrar. E muitas cousas mais. Mas tamém sei que em toda África, Ásia e América Latina, a gente passa fame, não tem sanidade pública, nem educação para os seus filhos, nem um entorno social no que poder viver, no sentido mais profundo da palávra.
Quando os bancos davam créditos, ou cartões de pago adiado, e dinheiro a eito, comprava telefones, PSP, computadoras, roupa, calçado, cousas para embelecer a minha casa, sem me preocupar polos meus irmãos trabalhadores que perdiam a vida e a dignidade para que eu pudesse ter essas parvoíces. Os senhores do dinheiro fregavam as mãos. Suas contas medravam cada vez mais e os seus ditadorzinhos mantinham à raia aos seus escravos para evitar quaiquer mostra de rebeldía. Quando saíam as novas na TV de guerras na Costa do Marfim ou no Congo, diziamos: Olha para aí, estes africanos, que selvagens. Lutam uns com outros como animais. Não queriamos saber a verdade: Que o combustível do nosso carro, ou o nosso telemóvel de última geração, estava fabricado com o sangue de operários na escravidão.
Pois agora, tocou-nos a nós. Um pouquinho. Nada comparável ao de eles. E, com toda a razão, nos reviramos e saímos às ruas. Mas…Onde quedou o internacionalismo solidário? As ideias dum mundo mais livre, igualitário e humano? Nas ONG com as que descarregamos as conciências? Nas tristes esmolas ou apropiações de crianças que desarraigamos dos seus paises e suas culturas para lhes fazer um favor? Porque no nosso pais não nos deixam ter um filho sem o parir?
Até que sintamos que cada mãe sou eu mesma, cada filho o nosso filho, -porque é filho dumha mãe, ainda que não tenha que comer e tenha de ficar fechado numha gaiola tecendo alfombras e tapices com seus dedinhos para que os operários podam ter casas de burgueses-, cada avó, o meu avó. Até que não mudemos isso, sempre será o mesmo. E não lhe botemos a culpa aos psicosociópartas que abusam de nós. Que, quando abussavam dos demais, nós mirávamos para o outro lado para não ver, com tal de poder ter essas estupideces que nos ofereciam.


A foto é tirada de nomasmentiras.worpress.com