Tempo e eternidade

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LMQ.gifuando eu era umha meninha, ainda o estado espanhol vivía baixo a ditadura de Franco e a ditadura franquista foi sempre fortemente apoiada pola igreja católica e o catolicismo,uns dos maiores símbolos da ditadura.

Até tal ponto chegava o servilismo da igreja católica, que quando o ditador Franco participava num ato litúrgico, os oficiantes, o levavam baixo do pálio que está reservado ao Santíssimo Sacramento quando sai em procissão dentro da sua custódia dourada.

Se conto estas cousas, é para que compreendades que a minha infáncia foi totalmente colonizada polo catolicismo revelhido e lúgubre de aqueles anos e que o “catecismo” ou livro da doutrina da igreja era de obrigada aprendizagem em todas as escolas com as mesmas palávras com as que fora redatado polas autoridades da cúria eclesial, aínda que nós, meninhos galegos do rural, não percebiamos nada de todo aquel remexido de ideias tão abstratas e, ainda para mais, em espanhol, idioma que não era o nosso nem podiamos falar nem perceber na sua maior parte.

Bem. Pois entre toda aquela doutrina ininteligível, havia umha ideia que sempre me despertou curiosidade: Deus era eterno. Não tinha princípio nem fim. Existiu sempre e existir-á por toda a eternidade.

Aquela afirmação era completamente incompressível para mim.

Com o passo do tempo, de vagar, fui passando a vida e, com ela, as vivências, sentimentos, ideias e todo o que se foi acumulando na minha mala vital.

Agora, estou por ver que aquela afirmação de que a eternidade existía, era certa. Mas não só para aquele senhor de barba branca e um olho dentro dum triángulo equilátero que nos vigiava em todo momento. Para todos e para todo a eternidade é um estado onde o tempo não existe. Porque, tanto o pasado como o futuro, são em realidade, projecções do pensamento sem verdadeira existéncia. O passado e o futuro, como memória ou imaginação, estam no presente. Todas as vivéncias de momentos passados estam em nós, como presente.  E o futuro não existe mais que como umha tentativa de se projectar que tem lugar agora, no presente tamém.

Só existe presente. Presente que leva em sí todas as vivéncias, avatares e sensações vividas ou sonhadas.

Esse é o sentido da palávra eternidade.

Cada um de nós, cada areia, cada folha, cada latejo do macro ou micro cosmos, tem em sí mesmo  o presente que veu de longe e vai para não se sabe onde em cada momento.

Só existe este momento. Este momento no que escrevo estas palávras fruto de toda a minha história pessoal e tamém da do universo, com suas estrelas, galaxias e fontes de energia que me tem trazido até aquí. Tudo está presente agora, em mim.

Desde a primeira explosão estelar que faz possível que eu exista, até as sucesivas explossões de sentimento frente ao mundo, aos olhos dum amado, ou o sorriso de tantos meninhos que tive a sorte de conhecer nos meus anos de mestra. Todas as terras que descobri, os amenceres que me encheram de emoções, os cantos das mesquitas do Magreb, os bairros de Barcelona onde vivi, os companheiras e companheiros com os que comparti a minha alegría, cansaço, afecto, as tristezas, as penas, os namoros, o medo. O amor.

Essa sensação de eternidade que não acredito que seja a mesma do “catecismo”, do senhor de barba branca que mora numha nubem a vigiar com seu olho as vidas alheias.

Corazones%20grandes

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