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De luzes e sombras. Monoteísmo vs. Politeísmo.

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aclearglitterTwistedly.gifo longo da vida, umha vai topando com pessoas, situações, fatos e vivências, próprias ou alheias que, quando se chega a umha certa idade e se está tranquila, sem trabalhar, só arrincando as ervas que estorbam no horto ou estendendo a roupa a enxugar, dão para muitos pensamentos e descobertas que fazem que umha não queira volver atrás no tempo, ainda que isso for possível.

Há pessoas, que a miúdo dizem: Quem me dera agora de vinte anos! Quem tivesse quinze ou dez e oito!!!

Se a mim me oferecessem essa possibilidade, consideraria-a umha condena, um castigo, um tormento como o de Sísifo e a sua roda, volver ao pé do monte, para subir de novo a pesada pedra da sua ignorância.

Por que digo isto? Pois porque a minha vida até os vinte anos, transcorreu num colégio católico, baixo umha ditadura e só após muito tempo fui quem de recuperar a minha inocência infantil. A viagem de volta foi um periplo arredor de mim mesma, do océano desconhecido e tenebroso que era o meu interior. Umha viagem ao fundo de mim mesma, que resultou fascinante, mas tamém terrível, dura e cheia de dor.

O outro día, falando com umha amiga minha, umha rapariga muçulmana que conheci nos meus anos de docência no Rif, ela contava-me o processo no que estava inmersa e lembrei tanto a minha própria vivência e a amargura, que me dou para esta reflexão:

Muita da angústia existencial dos seres humanos e, sobre tudo, se são do género feminino, vem pola via da religião. A religião que não é tal, porque não cumpre o seu objectivo de ajudar a se re-ligar com tudo quanto existe e sentir-se umha parte deste universo do que somos parte consciente e viva.

A religião, tal e como está concebida hoje em dia, é apenas um sistema de normas morais, que não éticas, de corte patriarcal,alienante e até sórdido e vergonhento. Faz-nos sentir mal, em contradição com nós mesmos, temerosos e eivados, privados da nossa capacidade para seguir aos nossos instintos, emoções, raciocínio e sentimentos,  os quatro eixos nos que se fundamenta o nosso ser. Em troques, exige-nos delegar nos papas e popes que ditam as normas, deixando que pensem, sintam e decidam por nós.

Há gente que fica contenta com essa maneira de fazer as cousas: Eles não pensam , limitam-se a assistir aos templos, presenciar a litûrgia e seguir as normas de portas para fóra, diante dos demais: Ficam tranquilos, sem problemas aparentes e são bem vistos pola maioria dos seus vizinhos.

Mas, negar-se a si mesmo, com o tempo, passa a factura , ao indivíduo e à sociedade na que ele vive.

E excuso falar de escándalos, abusos,intoleráncia, machismo, violéncia, extermínio de seres humanos,por parte dos papas e popes de religiões várias.

E agora chego ao ponto central da minha reflexão: Há dous jeitos de conceber a religião: O monoteismo : Cristianismo, que junto com o islão, procedem do monoteísmo hebreu, nado nas áridas terras do Meio Oriente, nas tribos dos pastores de ovelhas. Religião que afinca as suas raízes na crença dum único deus que, como tal, tem de ser excludente, monolítico e unilateral.

Nas religiões monoteísticas há espaço unicamente para a luz, umha luz cegadora que emana de deus e que não deixa lugar a sombras, pontos escuros, penumbra ou escuridade. O olho de deus, dentro do triângulo, está sempre à espreita,vigiando cada passo, cada ato, cada pensamento. Na cultura islámica, esse olho está representado na comunidade, na umma, a sociedade na que vives, que te protege, mas que vigia implacável o teu comportamento. Para que falar da religião hebrea, que sostem que os seus praticantes são o povo elegido entre todos os demais da humanidade.

Está claro que as religiões monoteísticas, assim concebidas, são inhumanas, porque privam ao ser humano de algo fundamental na sua essência e que tem de se manifestar a travês da sua existência.  Privam ao ser humano, como micro-cosmos que é, da sua sombra, escuridade,penumbra. Os ritmos macro-cósmicos de dia e noite, verão e inverno,solpôr e amencer. Assim trata de lhe arrincar da mente a ligação com o útero, essa parte feminina escura e húmida de onde procede, para mimimiçar o papel da mãe, porque deus não pode ser umha mulher. Faltaria mais! As sociedades de pastores são patriarcais ao cento por cem.

Mas… Umha pessoa não pode viver sem a sua própria escuridade. A escuridade das cousas que não gostam aos popes, dos instintos, emoções, sentimentos e ideias que temos de reprimir, represar no nosso interior sem sequer atrever-nos a reconhecé-las, olhá-las de frente, queré-las como nossas, porque 0 são, rir-nos com elas, perdoar-nos e compreender-nos, para poder compreender e perdoar aos demais. Ou sacá-las à luz, para enfrentar-nos à catarse colectiva, porque, no fundo, todos somos iguais e a todos nos passam as mesmas cousas.

As religiões politeistas, comprem melhor esta função: Há deuses para os aspectos luminosos, mas tamém para os escuros: Sempre há algum deus ou deusa que encarne o desejo sexual, a ira, a impaciência, e mesmo a morte e a devastação. Assim, sempre podes ir acender umha candeia a um deus diferente, segundo o que reine nesse momento no teu coração.

As religiões pagãs, as animistas, são ainda mais humanas, porque ensinam a venerar a través da natureza, das ârvores, das plantas, dos ríos e os astros, cada recuncho do nosso ser, despertando a conciência de que formamos parte dum todo que nos cuida e nos protege, o mesmo que faz florescer as plantas, ou nos agasalha com os frutos da terra, a energia do sol ou a água que acalma a nossa sede.

A mais antiga das religiões conhecidas, diz-nos que não há nada além de TAO, o rio que flue e no que nos devemos  deixar levar se queremos ser felizes.


Cada quem tem o direito de praticar sua religião, se assim o decide. Mas, ainda para os crentes monoteístas: Que sentido teria que o deus que nos criou nos fosse premiar por rejeitar umha parte de nós mesmos e lutar contra ela? Se não gostamos de nós mesmos, pouco contento pode ficar o nosso criador. E nós, ainda menos. Assim faremos da nossa vida umha hipócrita amargura e da dos demais, um inferno.

Ao fim. Quem criou a quem? Os deuses a nós ou nós a eles para tratar de compreender o universo das nossas vivências e o acontecer da existência do cosmos no que estamos inmersos? Para tentar compreender o latejo do nosso próprio coração…Bum-bum. Bum-bum. Bum-bum. Sístole e diástole. Contracção e expansão. A música do universo está no nosso interior. Só há que ficar em vacío silêncio para escutar…E sentir…


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