Monthly Archives: Novembro 2011

Volvendo sobre os passos

Padrão

esde que cheguei de Marrocos, a minha vida foi mudando. Passei 35 anos fóra, e só 20 anos na minha casa: Os dez da minha infáncia e outros dez de maior. Agora levo desde a primavera do 2007 sem me mover e, pouco a pouco, de vagar, vão vindo a mim todas essas vivências do passado infantil, quando todo era vivido e experimentado por primeira vez. Essas vivências que marcam as nossas vidas para sempre e nos deixam um pouso que, como o dos vinhos, vai dar aroma e sabor a todo o que vivamos depois.

Agora fico cá. E deixo que todo esse pouso vaia subindo desde o fundo e aboie na superfície, entanto disfruto das cousas que me foram arrebatadas antes de tempo, por mor da vida, que às vezes, segue caminhos e mesmo carreiros com reviravoltas e desvios.

Estou a recuperar muitas cousas da minha infancia: Palàvras, ditos, sensações,e, sobre todo, maneiras de viver.

Na minha infancia, nas vilas pequenas da Galiza, a gente apenas mercava cousas. Comprávamos o óleo de oliveira, o azucre, o vinho-a terra da Costa da Morte nom é de vinhas- e pouco mais. Todo o demais, fazia-se na casa e produzia-se no campo.

Há muitas cousas que se faziam na casa, e vou falar de todas elas nos dias que vem, mas hoje quero vos falar da horta:

A minha horta é um terreno que vai desde a casa até a beira do rio. A parte que fica mais perto do rio, nom se pode cultiivar, por mor das enchentes e do encharcamento. A metade  mais próxima à casa, é boa terra de cultivo, e nela planto de todo, sempre seguindo o decorrer do tempo, as estações, as luas…A terra forma parte do Universo e inter-actua com todo o que tem arrredor. Para cultivar, há que ter em conta este principio básico. Para cultivar há que manter e guardar a harmonia entre todos os elementos que vão influir nos nossos cultivos. Uma boa regra é plantar com a lua em quarto crecente. Nunca se deve de trabalhar na terra na “ponta da lúa”, quando a lua é nova e apenas se vê e tampouco é recomendável fazé-lo com lua cheia. A razom, é a força da gravidade que a lua exerce sobre a terra e que afeta sobre todo aos líquidos, por terem menos coesom molecular. A seiva das plantas é líquida, e portanto vê-se afetada por esta gravidade. Assim que já sabedes: Melhor crecente. Há excepções, que vos contarei quando chegue a elas.


                                                                                                  

 

                                                                                                    Os alhos                  

  alhos no mês de avril           

Se imos vendo os diferentes cultivos ao longo do ano, começamos com os mais madrugadores: Os alhos. Há um dito galego que diz: “Por Santa Lucia, o alho vê o dia” Quer dizer que lá polo 13 de dezembro-dia de Santa Luzia-, já se podem plantar alhos. Eu ainda nom posso plantar na minha horta, porque é terra molhada, que nom draina mui bem a água, e que se mantem compacta até que começa a escorregar, assim que, na minha leira, aos alhos chega-lhe bem irem em janeiro-A qualidade da terra tamém é um ponto importante para ter em conta- Pois, como digo, para Santa Lucia, na terra seca e para Janeiro na molhada, é tempo de plantar os alhos.

Para plantar os alhos, colhe-se uma cabeça das que se tenham na casa, e desfaz-se em dentes. Prepara-se a terra, cavando sem ir muito ao fundo, levantam-se uns reguinhos e põe-se-lhe o esterco no fundo, e depois, cum anzinho, aplana-se a terra, desfazendo-lhe os pequenos torrões que lhe puderam quedar.

Assim que a terra esteja aplanadinha, vão-se espetando os dentes de alho em fiadas separados un do outro um pé ou mesmo uma quarta. Espetam-se a pouca profundidade, e tem de medrar até o mês de agosto, quando há que os recolher. Entanto medram, há que lhe arrincar as ervas que lhe nascem polo meio, sachá-los cum sachinho pequeno para lhe tirar as ervas e lhe acolar a terra, tendo tino de nom os dessarraigar, com muito coidadinho. Se vemos que ficaram em vão, há que pisar arredor para que fiquem bem apousentados na terra e as raizes possam medrar, mas nom há que pisar muitas vezes, porque a terra endurece e forma uma códia que nom lhe deixa oxigenar-se nem medrar como é devido.

Em agosto, há que os recolher, depois de que seque bem seca a vara na que puseram a flor. Se está seca por acima mas por embaixo está verde, os alhos ainda nom estam bem maduros e nom servem para guardar para todo o ano.

Quando todo seque, vão-se arrincando da terra-se nom se vêm as caules, há que se ajudar do sachinho, ou das mãos, para ir seguindo cada rego e que nom quede nemum entre a terra. Depois atam-se em monlhos pequenos e deixam-se pendurados para podermos gastar todo o ano.

Hei de ir contando-vos como cultivo cada cousa da minha horta, e tamém como levo o meu galinheiro, mas essas cousas, outro dia.

Minha avoa dizia: És agudo como um alho. Já sabedes o por que. Porque som os primeiros em serem plantados. E porque aos alhos, nom os ataca becho, nem peste, nem fungo. Na minha terra até dizem que espantam as meigas e os males de olho. Por um se acaso, ela sempre me pendurava uma cabeça de alhos no tirante da camiseta, quando ia embora para a escola. Eu nom gostava, polo cheiro, mas…tampouco nunca a tirei. Nom fora a ser…

Anúncios

Escunchando lembranças

Padrão

omo vos dizia onte,cada dia irei debulhando uma das espigas da minha meda de milho. A anada deste ano, foi diferente a todas as anteriores da minha vida: Cá, na minha casinha, alhea a quase todo, com meu coraçom posto na minha horta e nos meus animalinhos. É certo que nom posso sair da casa, nem vestir a roupa-ando todo o dia com túnicas. Nom aturo a roupa que me corta pola cintura-, sem me afivelar, como uma anacoreta. Quando isto começou, estava intranquila, inqueda, triste ao ver as fotos de tantos lugares polos que caminhei e que talvez nom volva a visitar. Agora, passado um tempo, sinto-me feliz, tranquila, contenta com minhas pequenas cousas. Todos esses lugares, recendos, cores, eram reflexo do meu interior. Precissava de os ver, para despertar esses lugares íntimos, sonhados, fascinantes, na minha vivência. Agora que os vi, já tenho todo o que tenho que ter adentro de mim. Só me quedava recuperar os da infancia para que o círculo estiver completo: Ando nisso agora.

Pois é. Agora mesmo tenho na horta um grande e viçoso nabal. Quando era pequena, ia com minha mãe aos nabos e às aveas para as vacas. As aveas sementavam-se por entre os nabos, esparegendo a nebinha e os grãos e passando depois, o soumadoiro, para que levantasse a terra do rego e, depois de a estender cum trulho por acima com cuidado, ficassem tapados por uma fina capa de terra: “A semente do nabal, tem de ver ao seu dono marchar para a casa” segundo diziam os velhos. Agora, como nom há vacas, já nom se sementam as aveas por entre os nabos. Agora, seméntam-se os nabos sós, para comer as nabiças e os grelos no caldo. Eu tenho postos de duas castes de sementes: Uns, da parte de Santiago, de sabor mais suave e condiçom mais delicada. Outros, autoctones do val de Vimianço, mais amargos e um pontinho bravos, como corresponde a esta terra que abeira o Atlántico, mas que fica fechada num círculo de montanhas.

    Agora, ir aos nabos, nom é ir aos nabos. Quando eu era uma meninha e ia com minha mãe, lá polo mês de fevereiro, quando na terra nom quedava erva para lhe dar aos animais, tinhamos de apanhar entre as duas: Ela apanhava com o fouzinho as aveas verdes e eu arrincava os nabos redondos, chatos, de cor morada, e cum coitelo pequeninho, pelava-lhe o cû, a carom da raíz, para deixá-los limpinhos e sem terra. Havía tanto frio, que tinhamos de os apanhar por entre a geada, ou o pedraço, e as mãos ficavam sem siras, adormecidas e insensíveis polo frio…

Todas estas cousas estou a re-viver neste tempo que levo na casa. Ainda tenho muito mais que contar das minhas vivências.

Amanhã, se se põe a cousa bem para isso.

Até amanhã logo

E esse milagre?

Padrão

tarotssa é a frase de saudo que na minha terra se lhe diz a uma pessoa que leva muito tempo sem vir pola casa e, de súpeto, um dia aparez, sem avisar. Quando um, após tanto tempo, a vê cruzar pola porta para adentro, sente uma grande alegria, e pergunta: “- Ou! E esse milagre?”.

Pois, agora que começou o novo ano celta, que ainda estamos em tempo de escuncha do milho, os meus passos trouxeram-me de novo a esta minha casa virtual, num desejo de vos contar as novidades dos novos caminhos polos que a vida me vai levando e eu me deixo -Faltaria mais! A vida é muito mais forte do que a minha pobre vontade, assim que agora, já nom tenho vontade, agás para caminhar por onde ela me leva.

Agora que volví, nada mais aparecer polo painel-após tentar três vezes pôr o nome de usuário e o sinal, que o tinha esquecido-, o meu eu blogueiro, saudou-me:

“-Ou! E esse milagre? Vens de passo ou pra ficar?

-Pois nem sei…Como vaia vindo a cousa…”

Assim que…após um ano bem cheo-desde setembro do 2.010- volvemos a escunchar com nosso ferrinho nas maçarocas de colores.

Num ano passam muitas cousas. A mim, por sorte, nom me passaram muitas novidades no meu contorno, mas, no meu interior, houve tantas mudanças…

Agora já nom saio nada da minha casa, nem para ir ao pão.

Agora ando na andaina da criança de galinhas, polos e pavos, na horta, na publicaçom de “Mar e Terra”, que ficou precioso, e na convivencia em harmonía com o mundo de dentro e o de fóra.

Amanhã vou-vos contar cousas dos animais, a horta, a harmonia e a desarmonia do mundo que tenho ao meu redor.

Muita saudinha e sorte para todos.

Ata amanhã-Se quadra-…