Volvendo sobre os passos

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esde que cheguei de Marrocos, a minha vida foi mudando. Passei 35 anos fóra, e só 20 anos na minha casa: Os dez da minha infáncia e outros dez de maior. Agora levo desde a primavera do 2007 sem me mover e, pouco a pouco, de vagar, vão vindo a mim todas essas vivências do passado infantil, quando todo era vivido e experimentado por primeira vez. Essas vivências que marcam as nossas vidas para sempre e nos deixam um pouso que, como o dos vinhos, vai dar aroma e sabor a todo o que vivamos depois.

Agora fico cá. E deixo que todo esse pouso vaia subindo desde o fundo e aboie na superfície, entanto disfruto das cousas que me foram arrebatadas antes de tempo, por mor da vida, que às vezes, segue caminhos e mesmo carreiros com reviravoltas e desvios.

Estou a recuperar muitas cousas da minha infancia: Palàvras, ditos, sensações,e, sobre todo, maneiras de viver.

Na minha infancia, nas vilas pequenas da Galiza, a gente apenas mercava cousas. Comprávamos o óleo de oliveira, o azucre, o vinho-a terra da Costa da Morte nom é de vinhas- e pouco mais. Todo o demais, fazia-se na casa e produzia-se no campo.

Há muitas cousas que se faziam na casa, e vou falar de todas elas nos dias que vem, mas hoje quero vos falar da horta:

A minha horta é um terreno que vai desde a casa até a beira do rio. A parte que fica mais perto do rio, nom se pode cultiivar, por mor das enchentes e do encharcamento. A metade  mais próxima à casa, é boa terra de cultivo, e nela planto de todo, sempre seguindo o decorrer do tempo, as estações, as luas…A terra forma parte do Universo e inter-actua com todo o que tem arrredor. Para cultivar, há que ter em conta este principio básico. Para cultivar há que manter e guardar a harmonia entre todos os elementos que vão influir nos nossos cultivos. Uma boa regra é plantar com a lua em quarto crecente. Nunca se deve de trabalhar na terra na “ponta da lúa”, quando a lua é nova e apenas se vê e tampouco é recomendável fazé-lo com lua cheia. A razom, é a força da gravidade que a lua exerce sobre a terra e que afeta sobre todo aos líquidos, por terem menos coesom molecular. A seiva das plantas é líquida, e portanto vê-se afetada por esta gravidade. Assim que já sabedes: Melhor crecente. Há excepções, que vos contarei quando chegue a elas.


                                                                                                  

 

                                                                                                    Os alhos                  

  alhos no mês de avril           

Se imos vendo os diferentes cultivos ao longo do ano, começamos com os mais madrugadores: Os alhos. Há um dito galego que diz: “Por Santa Lucia, o alho vê o dia” Quer dizer que lá polo 13 de dezembro-dia de Santa Luzia-, já se podem plantar alhos. Eu ainda nom posso plantar na minha horta, porque é terra molhada, que nom draina mui bem a água, e que se mantem compacta até que começa a escorregar, assim que, na minha leira, aos alhos chega-lhe bem irem em janeiro-A qualidade da terra tamém é um ponto importante para ter em conta- Pois, como digo, para Santa Lucia, na terra seca e para Janeiro na molhada, é tempo de plantar os alhos.

Para plantar os alhos, colhe-se uma cabeça das que se tenham na casa, e desfaz-se em dentes. Prepara-se a terra, cavando sem ir muito ao fundo, levantam-se uns reguinhos e põe-se-lhe o esterco no fundo, e depois, cum anzinho, aplana-se a terra, desfazendo-lhe os pequenos torrões que lhe puderam quedar.

Assim que a terra esteja aplanadinha, vão-se espetando os dentes de alho em fiadas separados un do outro um pé ou mesmo uma quarta. Espetam-se a pouca profundidade, e tem de medrar até o mês de agosto, quando há que os recolher. Entanto medram, há que lhe arrincar as ervas que lhe nascem polo meio, sachá-los cum sachinho pequeno para lhe tirar as ervas e lhe acolar a terra, tendo tino de nom os dessarraigar, com muito coidadinho. Se vemos que ficaram em vão, há que pisar arredor para que fiquem bem apousentados na terra e as raizes possam medrar, mas nom há que pisar muitas vezes, porque a terra endurece e forma uma códia que nom lhe deixa oxigenar-se nem medrar como é devido.

Em agosto, há que os recolher, depois de que seque bem seca a vara na que puseram a flor. Se está seca por acima mas por embaixo está verde, os alhos ainda nom estam bem maduros e nom servem para guardar para todo o ano.

Quando todo seque, vão-se arrincando da terra-se nom se vêm as caules, há que se ajudar do sachinho, ou das mãos, para ir seguindo cada rego e que nom quede nemum entre a terra. Depois atam-se em monlhos pequenos e deixam-se pendurados para podermos gastar todo o ano.

Hei de ir contando-vos como cultivo cada cousa da minha horta, e tamém como levo o meu galinheiro, mas essas cousas, outro dia.

Minha avoa dizia: És agudo como um alho. Já sabedes o por que. Porque som os primeiros em serem plantados. E porque aos alhos, nom os ataca becho, nem peste, nem fungo. Na minha terra até dizem que espantam as meigas e os males de olho. Por um se acaso, ela sempre me pendurava uma cabeça de alhos no tirante da camiseta, quando ia embora para a escola. Eu nom gostava, polo cheiro, mas…tampouco nunca a tirei. Nom fora a ser…

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2 responses »

  1. Sempre se aprende algo…Miña avoa tamén decía, “é listo coma un allo” e nunca souben o motivo desta frase; pensei que se refería ao seu saber penetrante.
    Unha aperta dende Ferrol.

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