Category Archives: Palávras

O pedraço

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granizada EclearglitterTwistedly.gifsta amanhã, às oito, despertei cum tremendo ruido que se escutava fóra e mesmo nos vidros da janela. Ergui-me sem me decatar bem do que fazia, numha dessas reacções que temos quando algo nos surprende dormindo. O ruido escutava-se fóra e mesmo contra a parede e contra as vidreiras da galeria.
Subi a persiana e umha imagem cheia de mágia e lembranças encheu os meus olhos.
Ao mesmo tempo, umha palavra esquecida, chegou assim, de súpeto, à memória. Umha palávra que primeiro aprendi em espanhol de Castela, mais tarde em galego estandar e já não a utilizava desde que tinha seis ou sete anos.
De súpeto, ao ver aquelas bolinhas brancas cubrindo a estrada, onde ficavam marcadas as rodeiras dos poucos automoveis que rodavam a essa hora, e no peitoril da janela, onde formavam pequenos montões de pérolas geadas.
Etão, de súpeto, a minha memória agasalhou-me e eu senti a minha própria voz, ao lhe dizer ao Suso:
“Mira, ouve como cai o pedraço..!”
Não sei em que lugar da minha memória ficava dormida a palavra da infáncia. A primeira, a que marca a pauta das que deveriam vir mais tarde.
Por desgraça, no caso dos meninhos galegos da minha geração, não foi assim.
Mas é umha ledícia e umha sorte despertar, após tanto tempo, as palavras que dormem, como a princesa da história da Bela Adormecida, no faiado da memória.


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O pote da bogada

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Já vos disse que, desde que voltei a Vimianço, cada día vou rercuperando palàvras, expressões, cousas que formavam parte da minha lingua de a cotio e que agora já não escuito nunca.

Umha delas, era esta que dizia minha mãe, ou quaisquer das mulheres que vem pola casa:

-Ferve o caldo?

-Ferve como o pote da bogada.

Era umha expressão para dizer que fervia ao máximo.

Também se utilizava outra expressão:

-Ferve a arroiões .

Os arroios quando baixa a água da chuva polo monte abaixo, borbolham e até podem formar cachão, na força da sua baixada. Assim se formam os arroiões.

Esta palàvra vinha no dicionário português e no Estraviz. E custou-me um pouquinho dar com ela, porque eu não sabia a etimologia nem a escrita exacta.

Mais doado foi dar com o pote da bogada, que ouvi tantas vezes sem saber de onde vinha, fui rastrejando cara atrás, como aquele jornalista do Cidadão Kane , até atopar o meu Rosebud, e velaí o que topei:

Bogada: Água fervida com cinza, que se bota à roupa ao lavá-la, para branqueá-la. (2) A mesma roupa branqueada.

O pote ao lume com a água para lhe pôr na banheira às sabas brancas de lenço ensaboadas, lavadas antes no rio, fervendo para lhe tirar o “moreno” da terra e do suor. O pote da bogada branqueava com o calor da água fervendo e a cinza. Mesmo o caruncho encarnado das camisolas suadas saia com a bogada. O caruncho negro, não saia. A bogada ficava toda a noite e, amanhã, a roupa ia ao clareio, após de a pasar pola água do rio para lhe tirar a cinza e volver a a ensaboar. Por último, recolhia-se do clareio e passava-se pola água para lhe tirar o sabão e estender no aramio, limpa como as calandras, ou as chirumas, recendendo a sabão e a ar.

Fascina-me toda a artesania do lavado da roupa. Quando eu era umha meninha, era travalho das mulheres e minha mãe e mais eu, passávamos muitas tardes no rio, lavando no lavadoiro de pedra, ajeonlhadas na “banqueta” de madeira. As tardes de rio, no verão, erão as mais fermosas, para mim.

No inverno, tínhamos que parar aos poucos, para quentar as mãos debaixo dos braços, porque, com o frio da água ficávamos sem “siras”, que é como se di em Vimianço quando os dedos, polo frio, não respondem e não podem agarrar.

No Priberam português não vinha reconhecida a palàvra bogada, mas sim no do senhor Estraviz, que recolheu com mimo tantas palàvras para nos devolver a realidade perdida.

Se não atopar as palàvras da minha infáncia, não poderia acreditar em a ter vivido.

Pensaria que a tinha sonhado, como tantas outras cousas…

As palàvras enchem de realidade minhas lembranças.

E aleda-me re-encontrar velhas amigas esquecidas.

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Em bulina

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Já vos disse que, desde que cheguei outra vez a Vimianço para quedar, sinto que volvo à infáncia e, umha das cousas que lembro com maior amor da minha infáncia, são as palàvras.

Palàvras aquelas cheias de vida, de matices, de sensações , de sentimentos, de presencias que vem de muito longe no tempo…

Desde que não vivo na minha vila, essas palàvras familiares foram exiladas no território comanche da minha memória, por não ter com quem as utilizar.

Mas, às vezes, vem vindo, sem serem convocadas, e xordem, aboiando no mar da mente, como estrelas que se iluminam no firmamento, cintilando com força.

Hoje amanhã, espertei e havia um ir e vir de luzes a travês do vidro da porta do meu cuarto. Acediam e apagavam como numha discoteca. Agora acesa, agora escuro. Assim varias vezes.

Medio durmida, xurdiu umha palàvra na minha mente adurminhada.

“Quem será o que anda de bulina a estas horas?”

Quanto tempo havia que não tinha essa palàvra presente nos meus pensamentos..!

Hoje ergui-me contenta. Recuperei A bulina para o meu vocabulário.

Pouco a pouco, espero ir arrejuntando todas as palàvras exiladas.

A travês delas, espero recuperar a minha infáncia, esse paraiso perdido no momento em que, por primeira vez e por exigências do guião, tive que mudar ao “castellano”.

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