Volvendo sobre os passos

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esde que cheguei de Marrocos, a minha vida foi mudando. Passei 35 anos fóra, e só 20 anos na minha casa: Os dez da minha infáncia e outros dez de maior. Agora levo desde a primavera do 2007 sem me mover e, pouco a pouco, de vagar, vão vindo a mim todas essas vivências do passado infantil, quando todo era vivido e experimentado por primeira vez. Essas vivências que marcam as nossas vidas para sempre e nos deixam um pouso que, como o dos vinhos, vai dar aroma e sabor a todo o que vivamos depois.

Agora fico cá. E deixo que todo esse pouso vaia subindo desde o fundo e aboie na superfície, entanto disfruto das cousas que me foram arrebatadas antes de tempo, por mor da vida, que às vezes, segue caminhos e mesmo carreiros com reviravoltas e desvios.

Estou a recuperar muitas cousas da minha infancia: Palàvras, ditos, sensações,e, sobre todo, maneiras de viver.

Na minha infancia, nas vilas pequenas da Galiza, a gente apenas mercava cousas. Comprávamos o óleo de oliveira, o azucre, o vinho-a terra da Costa da Morte nom é de vinhas- e pouco mais. Todo o demais, fazia-se na casa e produzia-se no campo.

Há muitas cousas que se faziam na casa, e vou falar de todas elas nos dias que vem, mas hoje quero vos falar da horta:

A minha horta é um terreno que vai desde a casa até a beira do rio. A parte que fica mais perto do rio, nom se pode cultiivar, por mor das enchentes e do encharcamento. A metade  mais próxima à casa, é boa terra de cultivo, e nela planto de todo, sempre seguindo o decorrer do tempo, as estações, as luas…A terra forma parte do Universo e inter-actua com todo o que tem arrredor. Para cultivar, há que ter em conta este principio básico. Para cultivar há que manter e guardar a harmonia entre todos os elementos que vão influir nos nossos cultivos. Uma boa regra é plantar com a lua em quarto crecente. Nunca se deve de trabalhar na terra na “ponta da lúa”, quando a lua é nova e apenas se vê e tampouco é recomendável fazé-lo com lua cheia. A razom, é a força da gravidade que a lua exerce sobre a terra e que afeta sobre todo aos líquidos, por terem menos coesom molecular. A seiva das plantas é líquida, e portanto vê-se afetada por esta gravidade. Assim que já sabedes: Melhor crecente. Há excepções, que vos contarei quando chegue a elas.


                                                                                                  

 

                                                                                                    Os alhos                  

  alhos no mês de avril           

Se imos vendo os diferentes cultivos ao longo do ano, começamos com os mais madrugadores: Os alhos. Há um dito galego que diz: “Por Santa Lucia, o alho vê o dia” Quer dizer que lá polo 13 de dezembro-dia de Santa Luzia-, já se podem plantar alhos. Eu ainda nom posso plantar na minha horta, porque é terra molhada, que nom draina mui bem a água, e que se mantem compacta até que começa a escorregar, assim que, na minha leira, aos alhos chega-lhe bem irem em janeiro-A qualidade da terra tamém é um ponto importante para ter em conta- Pois, como digo, para Santa Lucia, na terra seca e para Janeiro na molhada, é tempo de plantar os alhos.

Para plantar os alhos, colhe-se uma cabeça das que se tenham na casa, e desfaz-se em dentes. Prepara-se a terra, cavando sem ir muito ao fundo, levantam-se uns reguinhos e põe-se-lhe o esterco no fundo, e depois, cum anzinho, aplana-se a terra, desfazendo-lhe os pequenos torrões que lhe puderam quedar.

Assim que a terra esteja aplanadinha, vão-se espetando os dentes de alho em fiadas separados un do outro um pé ou mesmo uma quarta. Espetam-se a pouca profundidade, e tem de medrar até o mês de agosto, quando há que os recolher. Entanto medram, há que lhe arrincar as ervas que lhe nascem polo meio, sachá-los cum sachinho pequeno para lhe tirar as ervas e lhe acolar a terra, tendo tino de nom os dessarraigar, com muito coidadinho. Se vemos que ficaram em vão, há que pisar arredor para que fiquem bem apousentados na terra e as raizes possam medrar, mas nom há que pisar muitas vezes, porque a terra endurece e forma uma códia que nom lhe deixa oxigenar-se nem medrar como é devido.

Em agosto, há que os recolher, depois de que seque bem seca a vara na que puseram a flor. Se está seca por acima mas por embaixo está verde, os alhos ainda nom estam bem maduros e nom servem para guardar para todo o ano.

Quando todo seque, vão-se arrincando da terra-se nom se vêm as caules, há que se ajudar do sachinho, ou das mãos, para ir seguindo cada rego e que nom quede nemum entre a terra. Depois atam-se em monlhos pequenos e deixam-se pendurados para podermos gastar todo o ano.

Hei de ir contando-vos como cultivo cada cousa da minha horta, e tamém como levo o meu galinheiro, mas essas cousas, outro dia.

Minha avoa dizia: És agudo como um alho. Já sabedes o por que. Porque som os primeiros em serem plantados. E porque aos alhos, nom os ataca becho, nem peste, nem fungo. Na minha terra até dizem que espantam as meigas e os males de olho. Por um se acaso, ela sempre me pendurava uma cabeça de alhos no tirante da camiseta, quando ia embora para a escola. Eu nom gostava, polo cheiro, mas…tampouco nunca a tirei. Nom fora a ser…

Escunchando lembranças

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omo vos dizia onte,cada dia irei debulhando uma das espigas da minha meda de milho. A anada deste ano, foi diferente a todas as anteriores da minha vida: Cá, na minha casinha, alhea a quase todo, com meu coraçom posto na minha horta e nos meus animalinhos. É certo que nom posso sair da casa, nem vestir a roupa-ando todo o dia com túnicas. Nom aturo a roupa que me corta pola cintura-, sem me afivelar, como uma anacoreta. Quando isto começou, estava intranquila, inqueda, triste ao ver as fotos de tantos lugares polos que caminhei e que talvez nom volva a visitar. Agora, passado um tempo, sinto-me feliz, tranquila, contenta com minhas pequenas cousas. Todos esses lugares, recendos, cores, eram reflexo do meu interior. Precissava de os ver, para despertar esses lugares íntimos, sonhados, fascinantes, na minha vivência. Agora que os vi, já tenho todo o que tenho que ter adentro de mim. Só me quedava recuperar os da infancia para que o círculo estiver completo: Ando nisso agora.

Pois é. Agora mesmo tenho na horta um grande e viçoso nabal. Quando era pequena, ia com minha mãe aos nabos e às aveas para as vacas. As aveas sementavam-se por entre os nabos, esparegendo a nebinha e os grãos e passando depois, o soumadoiro, para que levantasse a terra do rego e, depois de a estender cum trulho por acima com cuidado, ficassem tapados por uma fina capa de terra: “A semente do nabal, tem de ver ao seu dono marchar para a casa” segundo diziam os velhos. Agora, como nom há vacas, já nom se sementam as aveas por entre os nabos. Agora, seméntam-se os nabos sós, para comer as nabiças e os grelos no caldo. Eu tenho postos de duas castes de sementes: Uns, da parte de Santiago, de sabor mais suave e condiçom mais delicada. Outros, autoctones do val de Vimianço, mais amargos e um pontinho bravos, como corresponde a esta terra que abeira o Atlántico, mas que fica fechada num círculo de montanhas.

    Agora, ir aos nabos, nom é ir aos nabos. Quando eu era uma meninha e ia com minha mãe, lá polo mês de fevereiro, quando na terra nom quedava erva para lhe dar aos animais, tinhamos de apanhar entre as duas: Ela apanhava com o fouzinho as aveas verdes e eu arrincava os nabos redondos, chatos, de cor morada, e cum coitelo pequeninho, pelava-lhe o cû, a carom da raíz, para deixá-los limpinhos e sem terra. Havía tanto frio, que tinhamos de os apanhar por entre a geada, ou o pedraço, e as mãos ficavam sem siras, adormecidas e insensíveis polo frio…

Todas estas cousas estou a re-viver neste tempo que levo na casa. Ainda tenho muito mais que contar das minhas vivências.

Amanhã, se se põe a cousa bem para isso.

Até amanhã logo

E esse milagre?

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tarotssa é a frase de saudo que na minha terra se lhe diz a uma pessoa que leva muito tempo sem vir pola casa e, de súpeto, um dia aparez, sem avisar. Quando um, após tanto tempo, a vê cruzar pola porta para adentro, sente uma grande alegria, e pergunta: “- Ou! E esse milagre?”.

Pois, agora que começou o novo ano celta, que ainda estamos em tempo de escuncha do milho, os meus passos trouxeram-me de novo a esta minha casa virtual, num desejo de vos contar as novidades dos novos caminhos polos que a vida me vai levando e eu me deixo -Faltaria mais! A vida é muito mais forte do que a minha pobre vontade, assim que agora, já nom tenho vontade, agás para caminhar por onde ela me leva.

Agora que volví, nada mais aparecer polo painel-após tentar três vezes pôr o nome de usuário e o sinal, que o tinha esquecido-, o meu eu blogueiro, saudou-me:

“-Ou! E esse milagre? Vens de passo ou pra ficar?

-Pois nem sei…Como vaia vindo a cousa…”

Assim que…após um ano bem cheo-desde setembro do 2.010- volvemos a escunchar com nosso ferrinho nas maçarocas de colores.

Num ano passam muitas cousas. A mim, por sorte, nom me passaram muitas novidades no meu contorno, mas, no meu interior, houve tantas mudanças…

Agora já nom saio nada da minha casa, nem para ir ao pão.

Agora ando na andaina da criança de galinhas, polos e pavos, na horta, na publicaçom de “Mar e Terra”, que ficou precioso, e na convivencia em harmonía com o mundo de dentro e o de fóra.

Amanhã vou-vos contar cousas dos animais, a horta, a harmonia e a desarmonia do mundo que tenho ao meu redor.

Muita saudinha e sorte para todos.

Ata amanhã-Se quadra-…

tempo de dálias

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al12col1.gif dália, uma planta da família das asteráceas, é  originária do México. Já nos tempos do império asteca, se cultivavam dálias nessas terras, onde era chamada ‘xicaxochitl’

Por volta do final do século XVIII, o diretor do Jardim Botánico de Madrí, o senhor Antonio José Cavanilles, cultivou as primeiras plantas, às quais chamou “dahlias” em honor ao botánico sueco Anders Dahl. Assim seguem a se chamar agora em todo o mundo, agás nalguns paises da Europa do Leste, onde é chamada georgina.

Mui pronto, a dália se introduciu nos jardins, sobre todo em Bélgica e Dinamarca e nas cortes europeias daqueles tempos: A emperatriz Josefina, de França, e a raínha Vitória, de Inglaterra, foram mui afeiçoadas ao seu cultivo nos seus jardins palaciegos.

Com o tempo, viu-se que a dália era uma planta de fácil hibridação com outras plantas, como os crisantemos, e que, ademais, ela mesma podia variar com facilidade. Assim, hoje em dia, conhecem-se 30 espécies de dálias e 20.000 variedades.

Plantam-se a partir dum tubérculo que medra subterráneo e que almazena as reservas de alimento. A plantação faz-se na primavera-março-maio- e a floração, na Galiza, sucede no verão ou mesmo ao começar o outono-julho-setembro-.

Há que as plantar onde dea o sol e a uma distáncia de meio metro uma da outra. A profundidade, mais ou menos o duplo do tamanho da “pataca” ou tubérculo. Estes tubérculos, vão reproduzindo-se e, se se querem obter mais plantas, há que os desenterrar e dividí-los cum corte limpo dum cutelo bem afiado. Logo planta-se cada um por separado e já temos duas plantas. Se se deixam ficar na terra, sem as desenterrar em todo o ano, cada vez imos ter mais plantas, ao irem-se reproducindo as raizes carnosas embaixo da terra. Seica os astecas comiam suas raizes como alimento, mas em Europa não chegou a calhar essa maneira de as aproveitar. Simplesmente, são umas resistentes e formosas amigas do nosso jardim.

Tubérculos ou raizes carnosas de dália

A crise? O trabalho, a risa que fazem de nós.

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Desde os meios de comunicação pregoam uma crise, que, em realidade tem mais pinta de ser  uma manobra para recortar o gasto social dos paisses europeus tornar em escravos aos que erão trabalhadores, ou, polo menos, esse era o seu nome e a condição que eles acreditavam em ter, e seguir adiante com essa linha de capitalismo neo-liberal que se basea em aquela senténcia de Hobbes de “O homem é um lobo para o homem” que, mais tarde, os pais fundadores do capitalismo se ocupariam de dessenvolver até hoje, que estamos a acadar as últimas consequências.

Dentro deste contexto de pseudo-crise, -os bancos seguem a ganhar dinheiro e o Estado a recadar tributos que, mais tarde, destina a reforçar a situação da banca- que nos queda a nós, gente comum, sem espaço nos grandes centros de decisão que regem uma economia cada vez mais Global e  mais corporativa, que marca as linhas da política das grandes nações e dos pequenos Estados.

Que reparte o planeta segundo os seus interesses e que mantem  ao cidadãos na condição de súbditos ou escravos.

Pois…Pouco ou muito podemos fazer, segundo como se mire.

Polo de pronto, somos muitos e somos quem mantemos os mercados com nossas compras. Um jeito consciente de comprar,seria a primeira base para mudar o mundo.

Em segundo lugar, somos trabalhadores. Nós tamém temos interesses corporativistas, como classe operária. Façamos valer o nosso trabalho.

Nos últimos anos, a tendencia geral era o mandar aos filhos à Universidade, estudar para se fazerem com titulações específicas e especializadas, que depois não podiam exercer, agás no ensino.

Os antiguos oficios perderam importáncia. Já ninguém quería que o se filho for canteiro, ou ferreiro.

O melhor dos ofícios é que sabes fazer cousas com as tuas mãos, e que não precisas de nemum chefe para poder trabalhar.  Simplesmente,fazes um trabalho para alguem que o precise, e entre vós, não há falta e mediadores, comerciantes, nem chefes-rata que só pensam em  eles e deixam aos operários sem os mais mínimos direitos com o pessoa, cidadão e trabalhador.

Tenho dous filhos com ofício: Um fiz estudos de talha em pedra e madeira e completou sua formação com experiéncia, trabalhando em todas as variantes da cantería, restauração, esculturas que faz nos tempos mortos, entre trabalho e trabalho, e talha de madeira.

Outro filho fiz estudos de joiería. Ele faz joias formosas com prata, ouro, pedras e pérolas, cuiro…experimentando no seu obradoiro, onde trabalha sobre encargos… É difícil agora, quando ainda não os conhecem, mas  acredito em que, com tempo, as cousas vão melhorar. Tem de fazer um bom trabalho. São os únicos responsáveis diante do que lhes paga.

Embaixo da casa, tenho um cachinho da terra de meus avós, onde ponho de todo para o ano: Cebolas, alhos, pementos, feijões, repolo, verças, nabiças…


Sabendo fazer cousas com as tuas mãos e tendo um anaquinho de terra, podes-te sentir libre, independente e mais seguro, nos tempos difíciles.

O mesmo deveria reger para os paises. Deveriam de ser auto-suficientes e produzir todo o que precisem para a sua subsisténcia.

Os mono-cultivos impostos polas corporações alimentárias ou as extrações mineiras que esnaquiçam a terra sem deixar mais que escravidão e guerras, não deveriam de ser permitidas. Meio mundo morre à fame por culpa de não terem alimentos. E não tem alimentos, porque plantam bananas, ou cacáu, ou extraem uránio , ou diamantes, para as grandes corporações europeias e dos EE.UU., na sua maior parte. Ao frente das nações, há governantes corruptos postos e mantidos por essas mesmas corporações que os armam e os patrocinam e, no entanto, a gente a morrer de miséria.

Que cada quem cuide sua terra e seu horto. Que plante o que precise para comer. Que trabalhe com independéncia, ofício e dignidade.

E deixemo-nos de cantos de sereias que só nos levam ao fundo do mar, com os tubarões famentos que nos rodeiam…

Por uma vida mais auto-suficiente e mais digna para todos os seres humanos.



A seleção espanhola de futebol

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stes dias andamos na casa pendentes dos partidos de futebol do mundial.

Já no mundial anterior vos comentei que gostava muito de ver jogar as selecções dos diferentes países e comparar estilos, jeitos de estar no campo, de desenvolver o jogo… Mas há uma diferença deste mundial ao outro. No anterior eu vivia no Rif, litoral mediterráneo de Marrocos, longe da casa e das minhas coordenadas de origem. Viver distante e fora da área de influência das tuas origens, às vezes é mui triste mas, outras vezes, da uma sensação de liberdade e leveza que te permite voar a onde queiras, sem ter roteiro nem destino marcado. És, simplesmente, uma exploradora. Uma viageira que vai à ventura. Podes tomar o que mais gostes da tua cultura e outras cousas da cultura na que vives, mudar, combinar,jogar com as mesturas…Um prazer.

Lembro aquele mundial como algo mui divertido. O meu homem levava um cartão de canal+ a piratear quando mudavam o código e eu via os partidos pola “parabólica” que tinhamos no terraço desde as tv suíça, francesa,italiana…A que quadrasse. Linda e intensa vida, a que vives sabendo que estás de passo!

Este ano, estou cá, na casa. Na Galiza. A visão do mundo que tenho desde aquí é diferente. É meu país. Suas contradições e seus paradoxos condicionam a minha vida. O sentido de pertença faz que, ante as cousas, a atitude não seja de jogar a viver, com a inocência de quem não é responsável da evolução dessa sociedade, mais que no tempo no que lá está. Cá, na casa, sinto-me responsável além do tempo que estive fora. A responsabilidade vai desde o nascer até a morte. Os laços com a terra de um, implicam peso, gravidade,a outra face da moeda.

Bom. Todos estes pensamentos e reflexões vem-me assim, cavilando no tema do que vos queria falar.

Se vós, os que vindes por esta casa virtual, sondes brasileiros ou portugueses, para vós há de ser algo estranho o que eu diga. Se sondes galegos, havedes de saber do que falo.

Desde que começou o mundial de Sudáfrica, com seleções, partidos e vuvuzelas, tive uma contradição, um paradoxo constante.

Quando uma selecção dum pais joga, todo o pais que gosta do futebol, desfruta e goza sem reparos do jogo da sua equipa.

Ou sofre, que para que uns ganhem outros hão de perder. Assim são os jogos de competição.

Mas, quando joga a seleção espanhola, é uma sensação de não poder desfrutar totalmente, como todos os demais.

Espanha é diferente.

É diferente, porque milhões de catalães, bascos e galegos, não nos sentimos identificados com essa realidade que chamam Espanha, e quisermos ter nossa própria selecção ou ir com a espanhola se nos permitirem decidir e assim o decidira a maioría. Esses milhões de pessoas, não acreditamos em que exista uma nação chamada Espanha da que formamos parte. Existe um Estado chamado Espanha, mas o nosso sentir não se identifica com ele em absoluto.

Os que se sentem espanhois, na sua maior parte, não compreendem nossa atitude e, desde as instituções estatais participa-se na guerra contra Serbia para liberar Kosovo, mas não se deixa que o lehendakari basco faça um referendo para saber a opinião dos cidadãos sobre a sua conformidade com a pertença ou não pertença ao Estado Espanhol. Defendem com todos os médios ao seu alcance- imprensa, tv, radio,manipulação- essa ideia de Espanha que é a de eles, a que mais lhe convem aos seus interesses. Eles tem o exército, o poder, a representatividade ante Europa e o resto do mundo.

Por esse motivo, em muitas casas “espanholas” os partidos da selecção não suscitam comentários sobre o jogo, que tamém, mas, sobre todo, sobre se é mais importante desfrutar do jogo ou boicotear a uma equipa que representa algo hostil

Eu tenho-o claro.

É o mundial do futebol e vou desfrutar do futebol. Logo virá a celebração de Santiago Apóstolo, para uns patrão de Espanha e matador de mouros e para outros, día da reivindicação da Nação galega. Uns numa fachada da catedral de Compostela e outros na outra. E no meio, os peregrinos  que vem de todo o mundo a fazer o caminho por razões religiosas, esotéricas, místicas, desportivas…

Em fim. Que é difícil, complicado e peculiar ser galego ou galega e viver na Galiza.

Ainda que tamém apaixonante e sempre surpreendente.

De luzes e sombras. Monoteísmo vs. Politeísmo.

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aclearglitterTwistedly.gifo longo da vida, umha vai topando com pessoas, situações, fatos e vivências, próprias ou alheias que, quando se chega a umha certa idade e se está tranquila, sem trabalhar, só arrincando as ervas que estorbam no horto ou estendendo a roupa a enxugar, dão para muitos pensamentos e descobertas que fazem que umha não queira volver atrás no tempo, ainda que isso for possível.

Há pessoas, que a miúdo dizem: Quem me dera agora de vinte anos! Quem tivesse quinze ou dez e oito!!!

Se a mim me oferecessem essa possibilidade, consideraria-a umha condena, um castigo, um tormento como o de Sísifo e a sua roda, volver ao pé do monte, para subir de novo a pesada pedra da sua ignorância.

Por que digo isto? Pois porque a minha vida até os vinte anos, transcorreu num colégio católico, baixo umha ditadura e só após muito tempo fui quem de recuperar a minha inocência infantil. A viagem de volta foi um periplo arredor de mim mesma, do océano desconhecido e tenebroso que era o meu interior. Umha viagem ao fundo de mim mesma, que resultou fascinante, mas tamém terrível, dura e cheia de dor.

O outro día, falando com umha amiga minha, umha rapariga muçulmana que conheci nos meus anos de docência no Rif, ela contava-me o processo no que estava inmersa e lembrei tanto a minha própria vivência e a amargura, que me dou para esta reflexão:

Muita da angústia existencial dos seres humanos e, sobre tudo, se são do género feminino, vem pola via da religião. A religião que não é tal, porque não cumpre o seu objectivo de ajudar a se re-ligar com tudo quanto existe e sentir-se umha parte deste universo do que somos parte consciente e viva.

A religião, tal e como está concebida hoje em dia, é apenas um sistema de normas morais, que não éticas, de corte patriarcal,alienante e até sórdido e vergonhento. Faz-nos sentir mal, em contradição com nós mesmos, temerosos e eivados, privados da nossa capacidade para seguir aos nossos instintos, emoções, raciocínio e sentimentos,  os quatro eixos nos que se fundamenta o nosso ser. Em troques, exige-nos delegar nos papas e popes que ditam as normas, deixando que pensem, sintam e decidam por nós.

Há gente que fica contenta com essa maneira de fazer as cousas: Eles não pensam , limitam-se a assistir aos templos, presenciar a litûrgia e seguir as normas de portas para fóra, diante dos demais: Ficam tranquilos, sem problemas aparentes e são bem vistos pola maioria dos seus vizinhos.

Mas, negar-se a si mesmo, com o tempo, passa a factura , ao indivíduo e à sociedade na que ele vive.

E excuso falar de escándalos, abusos,intoleráncia, machismo, violéncia, extermínio de seres humanos,por parte dos papas e popes de religiões várias.

E agora chego ao ponto central da minha reflexão: Há dous jeitos de conceber a religião: O monoteismo : Cristianismo, que junto com o islão, procedem do monoteísmo hebreu, nado nas áridas terras do Meio Oriente, nas tribos dos pastores de ovelhas. Religião que afinca as suas raízes na crença dum único deus que, como tal, tem de ser excludente, monolítico e unilateral.

Nas religiões monoteísticas há espaço unicamente para a luz, umha luz cegadora que emana de deus e que não deixa lugar a sombras, pontos escuros, penumbra ou escuridade. O olho de deus, dentro do triângulo, está sempre à espreita,vigiando cada passo, cada ato, cada pensamento. Na cultura islámica, esse olho está representado na comunidade, na umma, a sociedade na que vives, que te protege, mas que vigia implacável o teu comportamento. Para que falar da religião hebrea, que sostem que os seus praticantes são o povo elegido entre todos os demais da humanidade.

Está claro que as religiões monoteísticas, assim concebidas, são inhumanas, porque privam ao ser humano de algo fundamental na sua essência e que tem de se manifestar a travês da sua existência.  Privam ao ser humano, como micro-cosmos que é, da sua sombra, escuridade,penumbra. Os ritmos macro-cósmicos de dia e noite, verão e inverno,solpôr e amencer. Assim trata de lhe arrincar da mente a ligação com o útero, essa parte feminina escura e húmida de onde procede, para mimimiçar o papel da mãe, porque deus não pode ser umha mulher. Faltaria mais! As sociedades de pastores são patriarcais ao cento por cem.

Mas… Umha pessoa não pode viver sem a sua própria escuridade. A escuridade das cousas que não gostam aos popes, dos instintos, emoções, sentimentos e ideias que temos de reprimir, represar no nosso interior sem sequer atrever-nos a reconhecé-las, olhá-las de frente, queré-las como nossas, porque 0 são, rir-nos com elas, perdoar-nos e compreender-nos, para poder compreender e perdoar aos demais. Ou sacá-las à luz, para enfrentar-nos à catarse colectiva, porque, no fundo, todos somos iguais e a todos nos passam as mesmas cousas.

As religiões politeistas, comprem melhor esta função: Há deuses para os aspectos luminosos, mas tamém para os escuros: Sempre há algum deus ou deusa que encarne o desejo sexual, a ira, a impaciência, e mesmo a morte e a devastação. Assim, sempre podes ir acender umha candeia a um deus diferente, segundo o que reine nesse momento no teu coração.

As religiões pagãs, as animistas, são ainda mais humanas, porque ensinam a venerar a través da natureza, das ârvores, das plantas, dos ríos e os astros, cada recuncho do nosso ser, despertando a conciência de que formamos parte dum todo que nos cuida e nos protege, o mesmo que faz florescer as plantas, ou nos agasalha com os frutos da terra, a energia do sol ou a água que acalma a nossa sede.

A mais antiga das religiões conhecidas, diz-nos que não há nada além de TAO, o rio que flue e no que nos devemos  deixar levar se queremos ser felizes.


Cada quem tem o direito de praticar sua religião, se assim o decide. Mas, ainda para os crentes monoteístas: Que sentido teria que o deus que nos criou nos fosse premiar por rejeitar umha parte de nós mesmos e lutar contra ela? Se não gostamos de nós mesmos, pouco contento pode ficar o nosso criador. E nós, ainda menos. Assim faremos da nossa vida umha hipócrita amargura e da dos demais, um inferno.

Ao fim. Quem criou a quem? Os deuses a nós ou nós a eles para tratar de compreender o universo das nossas vivências e o acontecer da existência do cosmos no que estamos inmersos? Para tentar compreender o latejo do nosso próprio coração…Bum-bum. Bum-bum. Bum-bum. Sístole e diástole. Contracção e expansão. A música do universo está no nosso interior. Só há que ficar em vacío silêncio para escutar…E sentir…


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